Bem-vindos ao “Estórias de Bicharocos e Bicharada”, um blogue dos 7 aos 77 anos

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Rafeirão



Rafeirão era o último descendente de uma longa e distinta linhagem de rafeiros. Desde tempos imemoriais que a sua família tinha desempenhado papéis fundamentais na história da humanidade, tendo como exemplo mais saboroso o tetravô Ra Fei Lu, que rezam as crónicas terá servido o Imperador chinês Béu Béu (outras crónicas dizem que ele foi servido ao Imperador, mas não vamos explorar essa parte).


Tal herança dinástica angustiava Rafeirão, pois via todos os seus parentes com sucesso na vida, desde a manutenção da Lei e Ordem até à condução de invisuais pelos perigos das nossas ruas. Claro que, como em qualquer família, havia a ovelha negra, ou melhor, o rafeiro negro. Para desgosto de toda a família, o tio Snifador meteu-se na droga, após anos e anos a fiscalizar as malas que desembarcavam no Aeroporto da Portela, tendo posteriormente sido metido numa clínica de reabilitação, onde ainda hoje se encontrava.


Mas Rafeirão não se podia comparar com apenas um exemplo mau, pois toda uma família de benfeitores clamava pelo seu esforço em prol da sociedade. E as coisas não estavam famosas.
A única acção digna de registo que tinha praticado até então foi ajudar uma velhinha a atravessar a rua, ainda por cima para o local errado, o que lhe custou umas bengaladas no lombo. O desespero começava a tomar conta de si, pois por muito que rebuscasse nos seus talentos, não via nada de jeito, à excepção de uma dentição poderosa.

O seu tempo começava a escassear, pelo que tinha de descobrir rapidamente uma forma de ascender ao estrelato.
E foi então que uma ideia o atingiu violentamente. Quer dizer, não foi bem uma ideia, mas uma bola de futebol. Era isso, ia tornar-se um jogador profissional, daqueles capazes de levantar estádios inteiros com as suas habilidades! Só havia um pequeno problema: não tinha jeito nenhum para a coisa. Ele bem corria atrás da bola, mas a tentação era abocanhá-la, ao invés de a pontapear para as redes. Passou dias inteiros a praticar, mas a única coisa que conseguiu foi rebentar 38 bolas e arranjar uma úlcera gástrica ao treinador.

Colocada de parte a carreira futebolística, deram-lhe uma outra função, também ela ligada ao mundo da bola: morder o árbitro sempre que este cometesse um erro. Reformou-se passados cinco jogos, já com os dentes gastos, tendo de passar o resto da vida a comer sopa por uma palhinha. Pois é, o mundo da bola não é para qualquer rafeiro...

Texto de Jorge Pereira - Blogue: Rafeiro Perfumado (Todos os direitos de autor reservados)


... e humor!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Espírito de Natal

- Olá Zélito!... Oooops, que biquinho é esse? Que ar tão pensativo tens hoje.
- Olá.
…………
- Zélito à terra! Olááááá!
- Hum? Desculpa Mina, estava aqui perdido nos meus pensamentos.
- Pois, nota-se! Não me ligas nenhuma… Que se passa?
- É que… Sabes, andava como de costume entre as cadeiras daquele café ali à frente, à procura de migalhas e acabei por ouvir uma conversa entre uns humanos que me deixou muito triste.
- Triste?! Porquê?
- Estavam a falar sobre a época que muitos dos humanos agora festejam, chama-se Natal. Não percebi muito bem do que se trata, parece que há muitos, muitos anos nasceu um menino especial num sítio muito longe.
- E como se chamava esse menino?
- O menino chamava-se Jesus e nasceu em Belém. Como já disse, esse menino era muito especial, dizem que era filho de Deus e, tal como Deus, era muito bondoso e tinha como missão espalhar a boa vontade, a bondade, o carinho, a compaixão, a amizade e o Amor entre os homens, que estavam muito carentes destes sentimentos.
- Que lindo!!! E conseguiu?
- Parece que não… Estavam esses humanos precisamente a falar sobre isso. Nesta época do Natal celebra-se o nascimento desse menino mas hoje em dia os homens parecem ter esquecido a mensagem de Jesus e só se preocupam com os presentes.
- Presentes? E o que é isso?
- Também não percebi lá muito bem. Parece que compram coisas para dar uns aos outros.
- Coisas? Que coisas? Eu cá só me interesso por migalhinhas, umas sementes, enfim, paparoca! Hehehe
- Ah, mas os homens precisam de muito, mas mesmo muito mais coisas para se sentirem felizes. Não se contentam só em ter a barriguinha cheia como nós.
- Coitados!... Assim devem ter uma vida complicada.
- Complicadíssima!
- E ficaste triste por causa disso, foi?
- Não só por isso. Os tais humanos disseram ainda que há muitos homens, mulheres e crianças que nem sequer conseguem ter a barriguinha cheia, passam muita fome.
- Mas isso é simplesmente horrível!! E os outros deixam?!!??!! Tu trazes-me sempre umas migalhas quando não consigo desenvencilhar-me sozinha e o mesmo faço eu por ti.
- Eles disseram que poucos homens fazem isso uns pelos outros.
- Que triste!!! Ainda bem que nasci pardal! Depois do que me contaste, não gostava nada de ser humana.
- Pois, agora percebes porque estou assim?
- Claro!
………
- Zélito, tive uma ideia!
- Sim? Conta.
- Se não fazem eles, fazemos nós. Falamos com os outros pardais e tentamos recolher entre todos a maior quantidade possível de migalhinhas para esses humanos que passam fome.
- Boa Mina! Grande, grande ideia! Podemos falar também com os pombos, de certeza que eles vão querer ajudar. Ouvi os humanos dizerem ainda que uma das zonas do planeta onde há mais fome é África. Depois temos de fazer chegar lá as migalhas.
- Esse é um pequeno-grande detalhe que não sei como vamos resolver. África não fica do outro lado do mar? Nós não conseguimos voar até tão longe carregados com migalhas…
- Tens razão. Oh, assim nem vale a pena começar…
- Calma, vamos pensar bem. Havemos de encontrar uma solução.
- Só uma ave grande consegue fazer a travessia carregada de migalhas. Lembraste de alguém a quem possamos pedir ajuda?
- Ave grande? Tenho visto por aí uns grifos a passar. Pois é! Nesta altura eles estão em migração para… África!
- Boa!
- … e quem vai falar com eles? Eu tenho medo, são tããããããão grandes!
- São, sim. Mas não nos fazem mal. Eu vou lá falar com eles.
………
- Boa tarde Sr. Fulvus, posso dar-lhe uma palavrinha?
- Olá, quem és tu pirralho?
- Sou o Zélito e preciso de falar consigo sobre um assunto muito importante.
- Ah, sim?
- Sim! Eu e a minha amiga Mina queremos levar até África o verdadeiro espírito do Natal. Ou seja, levar até aos humanos que passam fome em África alguma comidinha e proporcionar-lhes assim algum conforto.
- Isso é realmente um assunto muito importante e interessante. Continua, sou todos ouvidos.
- Vamos, juntamente com os outros pardais e os nossos amigos pombos, recolher migalhas, milho e centeio. Como somos pequeninos e não conseguimos voar com muito peso, precisamos que alguém nos ajude e leve o que conseguirmos recolher. Será que nos pode ajudar assim como os outros grifos seus amigos?
- Claro que sim! Isso nem se pergunta. Tenho a certeza que os meus amigos vão aderir logo a esta ideia e empenhar-se nesta missão tão nobre.
- Que bom! Vamos já começar, que diz?
- O que digo? Mãos à obra meu rapaz! Nunca é cedo demais para partilhar o verdadeiro espírito de Natal.

Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

Queres saber mais sobre as aves que participam nesta estória? Então vai ver:
Pardal: http://www.avesdeportugal.info/pasdom.html
Pombo: http://www.avesdeportugal.info/colpal.html
Grifo: http://www.avesdeportugal.info/gypful.html
E sobre o Natal: http://pt.wikipedia.org/wiki/Natal


* * * A todos os visitantes e apoiantes deste projecto deixo aqui
os meus sinceros votos de que o espírito de Natal brilhe
nos vossos lares e corações.
Um muito Feliz Natal! * * *


Fotografias © Helena Paixão

Textos e poemas © Autores referidos em cada ‘post’

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