Bem-vindos ao “Estórias de Bicharocos e Bicharada”, um blogue dos 7 aos 77 anos

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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Porquinho-da-índia Mimoso


Era uma vez um porquinho-da-índia chamado Mimoso, muito querido por todos. Costumava brincar no pátio com as crianças, com o cão e o gato. Era bem recebido em todos os lugares, por ser pequenino, gordinho e simpático.

Mas, apesar disto, a verdade é que não estava totalmente feliz e satisfeito. O que acontecia era que o Mimoso era muitíssimo guloso e há muito tempo que não lhe saia do pensamento umas maçãs muito madurinhas que avistou num quintal bem perto do sítio onde morava. Pensava tanto nelas, que não conseguia fazer mais nada e isso deixava-o triste.

Os seus amigos preferidos: o gato Fausto e a cadela Kiara estavam preocupados por saberem que ele pensava tanto naquelas maçãs. Isso não ia dar bom resultado, não ia não...

- Au! Au!, dizia Kiara meio zangada. As maçãs não são tuas, são do vizinho, por isso não podes comê-las. Tira-as do teu pensamento.

- Miau! Miau! aconselhava o Fausto. Lembra-te meu amigo que não se deve cobiçar o que é dos outros. É um pensamento muito feio.

Nessas alturas o Mimoso baixava a cabeça meio envergonhado. Sabia que os seus amigos tinham razão. E fazia mil promessas de que não tocaria nelas. Mas, ele sabia o quanto estava difícil esquecê-las!

Um certo dia, o Mimoso resolveu passear sozinho. Saiu de casa, atravessou o quintal e sempre pela berma fez-se à estrada.

Ora correndo atrás de uma borboleta, ora brincando com as formigas, ora rebolando na terra gostosa.


O certo é que se afastava cada vez mais. De repente parou preocupado. Apareciam umas nuvens muito escuras no céu e um vento frio começou a soprar. Será que vinha aí um temporal?

- Espero que não faça trovões, pois tenho medo! – disse o Mimoso.

Mal tinha acabado de falar, ouviu o primeiro trovão, e disse: Tenho que voltar bem depressa para a minha casinha’’.

E girando as patinhas começou a correr. Para encurtar caminho foi por uns atalhos e ao atravessar uma cerca de arame farpado, o coitado quase ficou preso. Mas a chuva começou a cair com tanta força, que o Mimoso rapidamente ficou ensopado até os ossos e como começou a ficar muito cansado procurou um abrigo em baixo de uma árvore. A chuva continuava a cair em grossos pingos.

De repente o Sol surgiu como por encanto no céu azul.

Mimoso levantou-se resolvido a ir embora para casa, mas começou a sentir um cheirinho muito seu conhecido. Levantou o focinho. Que maravilha! Lá estavam na árvore as maçãs madurinhas e cheirosas!

Mas que tentação...

De boca aberta e olhos brilhando de cobiça, o Mimoso começou a dirigir-se para a árvore. Começou a mexer os galhos da macieira com força para que as maçãs caíssem e ele pudesse então comer, comer muito.

Mas, uma maçã muito madurinha teimava em não cair. Mimoso com a sua patinha tentou apanhá-la e perdeu o equilíbrio. Foi então que caiu numa lata de tinta vermelha que se encontrava por baixo da árvore.

- Que é isto? Onde fui cair? Gritou ele muito assustado.

Sacudiu-se então com muita força, mas a tinta não saia. Zangado consigo mesmo foi para casa a fim de limpar-se. Porém ai é que foi o pior, pois ninguém o reconheceu assim pintado de vermelho. Todos fugiram, cheios de medo.

O gato Fausto quase que lhe arranhou o focinho, e por um pouco, a cadela Kiara não lhe mordia.

Aí o Mimoso falou: Amigos sou eu, peço-vos para me esfregarem pois eu fui amaldiçoado por tentar comer as maçãs que não me pertenciam.

Então os amigos ficaram com muita pena do que lhe acontecera e trataram de lavá-lo. Esfregaram, esfregaram...mas a tinta não saiu mesmo.

Resultado: ninguém mais o chamou mais por Mimoso. Agora a sua alcunha era “o vermelho”.

E isso muito o entristecia! Porém, não tanto como a lembrança da feia acção que havia praticado. O gato Fausto e a cadela Kiara tinham razão, a cobiça é de facto muito feia. O Mimoso aprendeu a partir daí que se deve saber aceitar, com humildade, o que a vida nos dá.


Queres saber mais sobre os porquinhos-da-índia? Então vai ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Porquinho-da-índia


Texto de Teresa Escoval (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Rafeirão



Rafeirão era o último descendente de uma longa e distinta linhagem de rafeiros. Desde tempos imemoriais que a sua família tinha desempenhado papéis fundamentais na história da humanidade, tendo como exemplo mais saboroso o tetravô Ra Fei Lu, que rezam as crónicas terá servido o Imperador chinês Béu Béu (outras crónicas dizem que ele foi servido ao Imperador, mas não vamos explorar essa parte).


Tal herança dinástica angustiava Rafeirão, pois via todos os seus parentes com sucesso na vida, desde a manutenção da Lei e Ordem até à condução de invisuais pelos perigos das nossas ruas. Claro que, como em qualquer família, havia a ovelha negra, ou melhor, o rafeiro negro. Para desgosto de toda a família, o tio Snifador meteu-se na droga, após anos e anos a fiscalizar as malas que desembarcavam no Aeroporto da Portela, tendo posteriormente sido metido numa clínica de reabilitação, onde ainda hoje se encontrava.


Mas Rafeirão não se podia comparar com apenas um exemplo mau, pois toda uma família de benfeitores clamava pelo seu esforço em prol da sociedade. E as coisas não estavam famosas.
A única acção digna de registo que tinha praticado até então foi ajudar uma velhinha a atravessar a rua, ainda por cima para o local errado, o que lhe custou umas bengaladas no lombo. O desespero começava a tomar conta de si, pois por muito que rebuscasse nos seus talentos, não via nada de jeito, à excepção de uma dentição poderosa.

O seu tempo começava a escassear, pelo que tinha de descobrir rapidamente uma forma de ascender ao estrelato.
E foi então que uma ideia o atingiu violentamente. Quer dizer, não foi bem uma ideia, mas uma bola de futebol. Era isso, ia tornar-se um jogador profissional, daqueles capazes de levantar estádios inteiros com as suas habilidades! Só havia um pequeno problema: não tinha jeito nenhum para a coisa. Ele bem corria atrás da bola, mas a tentação era abocanhá-la, ao invés de a pontapear para as redes. Passou dias inteiros a praticar, mas a única coisa que conseguiu foi rebentar 38 bolas e arranjar uma úlcera gástrica ao treinador.

Colocada de parte a carreira futebolística, deram-lhe uma outra função, também ela ligada ao mundo da bola: morder o árbitro sempre que este cometesse um erro. Reformou-se passados cinco jogos, já com os dentes gastos, tendo de passar o resto da vida a comer sopa por uma palhinha. Pois é, o mundo da bola não é para qualquer rafeiro...

Texto de Jorge Pereira - Blogue: Rafeiro Perfumado (Todos os direitos de autor reservados)


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