Bem-vindos ao “Estórias de Bicharocos e Bicharada”, um blogue dos 7 aos 77 anos

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O mar estava em festa

As anémonas deixavam rastos coloridos por onde passavam e batiam às portas dos corais a avisar que todos estavam convidados para a grande festa que teria lugar nessa noite.
Sua majestade o rei Ripopó, o grandioso peixe colorido que governava os mares a Leste da corrente quente estava feliz. Finalmente a sua sobrinha chegava. O rei Ripopó e sua esposa, a rainha Riamar eram muito amados por todos os habitantes. Nada faltava naqueles mares azuis, excepto um filho para completar a felicidade de todos. Quando já ninguém acreditava que isso fosse possível chegou a notícia da morte do irmão do rei que viajava com a sua pequena filha pelos sete mares conhecidos.
Como era viúvo não existia ninguém para tomar conta da pequena. Os reis mandaram um mensageiro para trazer até eles a sua sobrinha.
Hoje era o grande dia, pois ela chegava a Encanto-mar.

Verdadeiros petiscos foram confeccionados, a música ecoava por todos os recantos do mar e todos os peixes escovavam as suas escamas para se apresentarem belos na grande festa que iria realizar-se.
Quando a noite chegou todo o mar brilhava para receber a tão desejada princesa.
Todos se viraram para admirar a sua beleza. Brilhava como um pequeno sol no meio do mar escuro. Era uma verdadeira estrela, uma estrela-do-mar adornada de brilhantes que todos olhavam.
Ninguém esperava que a princesa fosse uma estrela-do-mar, mas por todos foi aceite e por todos amada.
Os dias passavam e os reis estavam cada vez mais encantados com a sua princesa. De tal forma, que não se apercebiam que por detrás de tanto encanto, Almar era na verdade mimada, arrogante e muito convencida.
Habituados à simpatia dos reis, todos estranhavam as atitudes da pequena estrela-do-mar.
Umas vezes puxava as barbatanas aos peixinhos que por ela passavam deixando-os a chorar de dores, outras vezes espetava as suas pontas afiadas no corpo das anémonas que a tentavam distrair, mas o pior era quando pulava com tanta força no colo dos corais que os magoava ficando a rir-se e a gozar.
Na escola todos a evitavam com medo de todas as maldades que ela fazia.
Sempre que alguém avisava os reis das diabruras de Almar, estes riam-se e diziam que era apenas uma criança traquina e que com a idade acabaria por acalmar.
O certo é que o tempo passava e a estrela-do-mar ia tornando-se cada vez mais caprichosa e aumentando a maldade com que a todos tratava.
Em Encanto-mar as marés passavam sem que ela conseguisse um único amigo.
De tal forma que quando chegou a sua festa de anos e os reis mandaram uma carta de coral a todos para os convidar para a festa, ninguém respondeu afirmativamente.
Zangado o rei Ripopó mandou avisar que ninguém podia faltar à festa da princesa e, contrariados, todos se preparavam para cumprir a ordem.
Nessa tarde Almar não foi à escola, pois tinha de experimentar o vestido dourado que estava a ser feito com algas vindas directamente das Caraíbas e pérolas preciosas das ostras mais afamadas.
Depois de experimentar o vestido resolveu sair sem dizer nada a ninguém e, como já se achava bastante crescida dirigiu-se às Água Proibidas. Quando chegou a Encanto-mar todos a avisaram que não havia perigo naqueles mares, todos se respeitavam e tudo era pacífico, com excepção das Água Proibidas.
Ali, apesar da beleza aparente e do encanto das cores tudo era muito mau. Para lá das cores do arco-íris as águas eram revoltas, os terrenos pantanosos e os monstros habitavam naquelas paragens.
Almar achava-se mais corajosa que todos os outros e gozava com os meninos da escola que lhe diziam isso. Chamava-os cobardes e medricas e dizia que um dia lhes iria demonstrar que era a estrela mais corajosa de todos os mares.
Nesse dia encheu-se de coragem e foi até às Águas Proibidas. Quando se aproximava ia abrindo os olhos de admiração, tão belas eram as cores que encontrava pelo caminho. Mas à medida que se aproximava as águas foram ficando cada vez mais revoltas, os tons negros iam cobrindo todos os outros e o som melodioso da água a correr foi sendo abafado por rugidos fortes e assustadores.
Almar começou a ficar assustada e a gritar por socorro, mas quanto mais gritava mais as vozes aumentavam. Começou a sentir-se rebolar com muita força e a faltarem forças nas suas pontas. Tinha dores fortes e começou a chorar muito aflita.
De repente sentiu algo a puxá-la com muita força, assustada desmaiou.
Quando acordou estava toda dorida, mas já não ouvia os gritos nem as cores escuras que tanto medo lhe causaram.
-Tens sido muito desagradável e muito teimosa. Tentei ignorar o que me diziam, mas a verdade é que tens de aprender a ser mais amiga das pessoas.
A voz da rainha estava zangada e o seu rosto também. Almar estava feliz por estar ali com eles, mas ainda não sabia o que tinha acontecido.
Vendo o seu olhar cheio de interrogações Riamar disse-lhe:
-Lembras-te de Popi...aquele leão-marinho que tu tão maltrataste nos últimos dias, pois bem foi ele que te puxou com a sua cauda. Viu-te entrar nas águas proibidas e não hesitou em salvar-te, apesar de todos os males que lhe causaste.
Almar estava admirada. Aquele leão-marinho tão feio e todo torto tinha sido o seu salvador???

-É isso mesmo que precisas de aprender, as pessoas são belas pelo que têm dentro delas e não pela sua aparência. Tu, por exemplo, neste momento tens uma aparência assustadora e, no entanto, não gostamos menos de ti por isso.
Enquanto dizia estas palavras o rei mostrou a sua imagem reflectida num espelho de água.

Almar gritou quando viu a sua aparência.
-Estou um monstro, toda inchada, cheia de nódoas negras e com uma ponta partida...

-Sim, de facto é assim que pareces e o médico não sabe se conseguirás recuperar totalmente a ponta partida, no entanto, espero que tenhas aprendido algo com esta lição. Aqui ajudamo-nos todos uns aos outros. Respeitamo-nos, apesar das diferenças e, desta forma, sempre fomos felizes.

-Desculpem. Fui muito tonta, pois achava que era melhor do que os outros e, na verdade sou apenas uma pequena estrela sem brilho...
-Não, minha filha. Tens um brilho muito especial, apenas tens de o saber usar para o bem e não para o mal.

- Obrigada e prometo que vou ser diferente.
Quando disse estas palavras Almar voltou a ver as belas cores e a ouvir a música que a tinham encantado antes de entrar nas Águas Proibidas.
-Sim minha filha, a beleza está dentro de nós, fico feliz por teres entendido isso.


Texto de Carla Marques - Blogue: Palavras em desalinho (Todos os direitos de autor reservados)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Joaninha


É tão linda a joaninha
A andar de flor em flor
Calminha e redondinha
Faz da sua vidinha
Um bom exemplo de amor!

É vermelhinha e pretinha
Sobe aos caules de mansinho
Com ternura ela avança
Na vida tem muita esperança
Sem pressas... devagarinho!




Texto de Lenita Nabais (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Joãozinho reguila

Esta é a história do Joãozinho, um menino muito traquina e irrequieto. O Joãozinho é tão reguila que tudo lhe serve para brincar e pregar partidas. Gosta muito de se esconder e pregar valentes sustos à mãe. A mãe, coitada, dá sempre um grande pulo muito assustada quando ele salta detrás das portas, qual boneco de molas. E embora lhe diga que não a deve assustar, nem deixar os brinquedos espalhados pela casa e desarrumar as gavetas, entre outras traquinices, o Joãozinho volta sempre a fazer o mesmo.

Estarão a pensar “mas se neste blogue só entram estórias de bicharocos e bicharada porque aparece agora a história de um menino?”. É que este menino, de tão reguila e irrequieto que era, andava sempre a fazer marotices aos animais. O Tareco e o Pantufas, o gato e o cão lá de casa, já fugiam dele cada vez que o viam, depois de tantas vezes ele lhes ter feito maldades. O Tareco, com os seus grandes bigodes de gato, era o que sofria mais, o pobre!

- Miaaaaauuuuu! - berrava o Tareco sempre que o Joãozinho lhe escondia o peixinho do almoço. Mas o Joãozinho não o entendia. Não percebia que ele lhe dizia que estava cheio de fome e queria muito comer aquele peixinho.

- Au, au, aaaauuu, auuu! - lamentava-se o Pantufas quando recebia mais um valente puxão no rabo - “Assim magoas-me!” - queria ele dizer mas… o Joãozinho não o entendia.

Mas não pensem que o fazia por mal, não, fazia-o porque não percebia que os animais também têm sentimentos.

Um dia a mamã e o papá do Joãozinho levaram-no a passear ao jardim zoológico. O Joãozinho estava espantado com tantos animais, tão diferentes uns dos outros, uns muito grandes, outros muito pequenos. Estava muito feliz!

Ao passarem pelo recinto do tigre-da-sibéria o Joãozinho ficou espantado.

- Mamã, olha! Um tigre a lamber o outro, porquê?

- Então querido, é assim que eles demonstram que gostam muito um do outro. É a mesma coisa quando vens para o meu colinho e te faço muitas festinhas – explicou-lhe a mãe.

- Ah, sim?

- Sim.

Foram passeando pelo zoo. Os pais lá lhe iam explicando com muita paciência de onde vinha cada animal, qual o seu nome e o que comiam.

Estavam a ver os elefantes a brincar quando o elefante bebé, assustado com um empurrão de outro elefante, se foi aninhar junto da sua mãe.

- Mamã, parece que o elefante bebé está a pedir miminho à mãe como faço contigo quando me magoo.

- E está, Joãozinho!

O Joãozinho ficou pensativo e começou a prestar mais atenção ao que os animais faziam.

Quando passaram pelo recinto dos chimpanzés o Joãozinho ficou muito comovido.

- Oh, a mamã chimpanzé também dá colinho ao bebé dela e dá-lhe beijinhos nos pés como fazes comigo na brincadeira papá!

- Claro – disse o papá – os animais também gostam de brincar.

Quase a terminarem a visita ao zoo, o Joãozinho teve outra surpresa. Desta vez viu uma Mara a dar um beijinho, sim um beijinho!, ao filhote.

De regresso a casa os pais perguntaram-lhe o que tinha achado do jardim zoológico.

- Gostei muito! Obrigada mamã e papá, foi o melhor dia da minha vida. Hoje aprendi uma coisa muito importante.

- Uma coisa muito importante? Qual? – disse o papá.

- Aprendi que os animais também têm sentimentos, que também gostam de brincar… Não compreendia quando vocês me diziam que fazia muitas maldades ao Pantufa e ao Tareco mas agora… sinto vergonha e prometo que nunca mais o faço.

- Que bom – disseram os pais – percebeste que devemos respeitar os animais!

Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)


Queres saber mais sobre os animais que participam nesta estória? Então vai ver:
Tigre-da-sibéria:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tigre-siberiano
Elefante:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Elefante
Chimpanzé:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Chimpanz%C3%A9
Mara (ou Lebre-da-Patagónia):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mara_%28roedor%29

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Porquinho-da-índia Mimoso


Era uma vez um porquinho-da-índia chamado Mimoso, muito querido por todos. Costumava brincar no pátio com as crianças, com o cão e o gato. Era bem recebido em todos os lugares, por ser pequenino, gordinho e simpático.

Mas, apesar disto, a verdade é que não estava totalmente feliz e satisfeito. O que acontecia era que o Mimoso era muitíssimo guloso e há muito tempo que não lhe saia do pensamento umas maçãs muito madurinhas que avistou num quintal bem perto do sítio onde morava. Pensava tanto nelas, que não conseguia fazer mais nada e isso deixava-o triste.

Os seus amigos preferidos: o gato Fausto e a cadela Kiara estavam preocupados por saberem que ele pensava tanto naquelas maçãs. Isso não ia dar bom resultado, não ia não...

- Au! Au!, dizia Kiara meio zangada. As maçãs não são tuas, são do vizinho, por isso não podes comê-las. Tira-as do teu pensamento.

- Miau! Miau! aconselhava o Fausto. Lembra-te meu amigo que não se deve cobiçar o que é dos outros. É um pensamento muito feio.

Nessas alturas o Mimoso baixava a cabeça meio envergonhado. Sabia que os seus amigos tinham razão. E fazia mil promessas de que não tocaria nelas. Mas, ele sabia o quanto estava difícil esquecê-las!

Um certo dia, o Mimoso resolveu passear sozinho. Saiu de casa, atravessou o quintal e sempre pela berma fez-se à estrada.

Ora correndo atrás de uma borboleta, ora brincando com as formigas, ora rebolando na terra gostosa.


O certo é que se afastava cada vez mais. De repente parou preocupado. Apareciam umas nuvens muito escuras no céu e um vento frio começou a soprar. Será que vinha aí um temporal?

- Espero que não faça trovões, pois tenho medo! – disse o Mimoso.

Mal tinha acabado de falar, ouviu o primeiro trovão, e disse: Tenho que voltar bem depressa para a minha casinha’’.

E girando as patinhas começou a correr. Para encurtar caminho foi por uns atalhos e ao atravessar uma cerca de arame farpado, o coitado quase ficou preso. Mas a chuva começou a cair com tanta força, que o Mimoso rapidamente ficou ensopado até os ossos e como começou a ficar muito cansado procurou um abrigo em baixo de uma árvore. A chuva continuava a cair em grossos pingos.

De repente o Sol surgiu como por encanto no céu azul.

Mimoso levantou-se resolvido a ir embora para casa, mas começou a sentir um cheirinho muito seu conhecido. Levantou o focinho. Que maravilha! Lá estavam na árvore as maçãs madurinhas e cheirosas!

Mas que tentação...

De boca aberta e olhos brilhando de cobiça, o Mimoso começou a dirigir-se para a árvore. Começou a mexer os galhos da macieira com força para que as maçãs caíssem e ele pudesse então comer, comer muito.

Mas, uma maçã muito madurinha teimava em não cair. Mimoso com a sua patinha tentou apanhá-la e perdeu o equilíbrio. Foi então que caiu numa lata de tinta vermelha que se encontrava por baixo da árvore.

- Que é isto? Onde fui cair? Gritou ele muito assustado.

Sacudiu-se então com muita força, mas a tinta não saia. Zangado consigo mesmo foi para casa a fim de limpar-se. Porém ai é que foi o pior, pois ninguém o reconheceu assim pintado de vermelho. Todos fugiram, cheios de medo.

O gato Fausto quase que lhe arranhou o focinho, e por um pouco, a cadela Kiara não lhe mordia.

Aí o Mimoso falou: Amigos sou eu, peço-vos para me esfregarem pois eu fui amaldiçoado por tentar comer as maçãs que não me pertenciam.

Então os amigos ficaram com muita pena do que lhe acontecera e trataram de lavá-lo. Esfregaram, esfregaram...mas a tinta não saiu mesmo.

Resultado: ninguém mais o chamou mais por Mimoso. Agora a sua alcunha era “o vermelho”.

E isso muito o entristecia! Porém, não tanto como a lembrança da feia acção que havia praticado. O gato Fausto e a cadela Kiara tinham razão, a cobiça é de facto muito feia. O Mimoso aprendeu a partir daí que se deve saber aceitar, com humildade, o que a vida nos dá.


Queres saber mais sobre os porquinhos-da-índia? Então vai ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Porquinho-da-índia


Texto de Teresa Escoval (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Rafeirão



Rafeirão era o último descendente de uma longa e distinta linhagem de rafeiros. Desde tempos imemoriais que a sua família tinha desempenhado papéis fundamentais na história da humanidade, tendo como exemplo mais saboroso o tetravô Ra Fei Lu, que rezam as crónicas terá servido o Imperador chinês Béu Béu (outras crónicas dizem que ele foi servido ao Imperador, mas não vamos explorar essa parte).


Tal herança dinástica angustiava Rafeirão, pois via todos os seus parentes com sucesso na vida, desde a manutenção da Lei e Ordem até à condução de invisuais pelos perigos das nossas ruas. Claro que, como em qualquer família, havia a ovelha negra, ou melhor, o rafeiro negro. Para desgosto de toda a família, o tio Snifador meteu-se na droga, após anos e anos a fiscalizar as malas que desembarcavam no Aeroporto da Portela, tendo posteriormente sido metido numa clínica de reabilitação, onde ainda hoje se encontrava.


Mas Rafeirão não se podia comparar com apenas um exemplo mau, pois toda uma família de benfeitores clamava pelo seu esforço em prol da sociedade. E as coisas não estavam famosas.
A única acção digna de registo que tinha praticado até então foi ajudar uma velhinha a atravessar a rua, ainda por cima para o local errado, o que lhe custou umas bengaladas no lombo. O desespero começava a tomar conta de si, pois por muito que rebuscasse nos seus talentos, não via nada de jeito, à excepção de uma dentição poderosa.

O seu tempo começava a escassear, pelo que tinha de descobrir rapidamente uma forma de ascender ao estrelato.
E foi então que uma ideia o atingiu violentamente. Quer dizer, não foi bem uma ideia, mas uma bola de futebol. Era isso, ia tornar-se um jogador profissional, daqueles capazes de levantar estádios inteiros com as suas habilidades! Só havia um pequeno problema: não tinha jeito nenhum para a coisa. Ele bem corria atrás da bola, mas a tentação era abocanhá-la, ao invés de a pontapear para as redes. Passou dias inteiros a praticar, mas a única coisa que conseguiu foi rebentar 38 bolas e arranjar uma úlcera gástrica ao treinador.

Colocada de parte a carreira futebolística, deram-lhe uma outra função, também ela ligada ao mundo da bola: morder o árbitro sempre que este cometesse um erro. Reformou-se passados cinco jogos, já com os dentes gastos, tendo de passar o resto da vida a comer sopa por uma palhinha. Pois é, o mundo da bola não é para qualquer rafeiro...

Texto de Jorge Pereira - Blogue: Rafeiro Perfumado (Todos os direitos de autor reservados)


... e humor!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Espírito de Natal

- Olá Zélito!... Oooops, que biquinho é esse? Que ar tão pensativo tens hoje.
- Olá.
…………
- Zélito à terra! Olááááá!
- Hum? Desculpa Mina, estava aqui perdido nos meus pensamentos.
- Pois, nota-se! Não me ligas nenhuma… Que se passa?
- É que… Sabes, andava como de costume entre as cadeiras daquele café ali à frente, à procura de migalhas e acabei por ouvir uma conversa entre uns humanos que me deixou muito triste.
- Triste?! Porquê?
- Estavam a falar sobre a época que muitos dos humanos agora festejam, chama-se Natal. Não percebi muito bem do que se trata, parece que há muitos, muitos anos nasceu um menino especial num sítio muito longe.
- E como se chamava esse menino?
- O menino chamava-se Jesus e nasceu em Belém. Como já disse, esse menino era muito especial, dizem que era filho de Deus e, tal como Deus, era muito bondoso e tinha como missão espalhar a boa vontade, a bondade, o carinho, a compaixão, a amizade e o Amor entre os homens, que estavam muito carentes destes sentimentos.
- Que lindo!!! E conseguiu?
- Parece que não… Estavam esses humanos precisamente a falar sobre isso. Nesta época do Natal celebra-se o nascimento desse menino mas hoje em dia os homens parecem ter esquecido a mensagem de Jesus e só se preocupam com os presentes.
- Presentes? E o que é isso?
- Também não percebi lá muito bem. Parece que compram coisas para dar uns aos outros.
- Coisas? Que coisas? Eu cá só me interesso por migalhinhas, umas sementes, enfim, paparoca! Hehehe
- Ah, mas os homens precisam de muito, mas mesmo muito mais coisas para se sentirem felizes. Não se contentam só em ter a barriguinha cheia como nós.
- Coitados!... Assim devem ter uma vida complicada.
- Complicadíssima!
- E ficaste triste por causa disso, foi?
- Não só por isso. Os tais humanos disseram ainda que há muitos homens, mulheres e crianças que nem sequer conseguem ter a barriguinha cheia, passam muita fome.
- Mas isso é simplesmente horrível!! E os outros deixam?!!??!! Tu trazes-me sempre umas migalhas quando não consigo desenvencilhar-me sozinha e o mesmo faço eu por ti.
- Eles disseram que poucos homens fazem isso uns pelos outros.
- Que triste!!! Ainda bem que nasci pardal! Depois do que me contaste, não gostava nada de ser humana.
- Pois, agora percebes porque estou assim?
- Claro!
………
- Zélito, tive uma ideia!
- Sim? Conta.
- Se não fazem eles, fazemos nós. Falamos com os outros pardais e tentamos recolher entre todos a maior quantidade possível de migalhinhas para esses humanos que passam fome.
- Boa Mina! Grande, grande ideia! Podemos falar também com os pombos, de certeza que eles vão querer ajudar. Ouvi os humanos dizerem ainda que uma das zonas do planeta onde há mais fome é África. Depois temos de fazer chegar lá as migalhas.
- Esse é um pequeno-grande detalhe que não sei como vamos resolver. África não fica do outro lado do mar? Nós não conseguimos voar até tão longe carregados com migalhas…
- Tens razão. Oh, assim nem vale a pena começar…
- Calma, vamos pensar bem. Havemos de encontrar uma solução.
- Só uma ave grande consegue fazer a travessia carregada de migalhas. Lembraste de alguém a quem possamos pedir ajuda?
- Ave grande? Tenho visto por aí uns grifos a passar. Pois é! Nesta altura eles estão em migração para… África!
- Boa!
- … e quem vai falar com eles? Eu tenho medo, são tããããããão grandes!
- São, sim. Mas não nos fazem mal. Eu vou lá falar com eles.
………
- Boa tarde Sr. Fulvus, posso dar-lhe uma palavrinha?
- Olá, quem és tu pirralho?
- Sou o Zélito e preciso de falar consigo sobre um assunto muito importante.
- Ah, sim?
- Sim! Eu e a minha amiga Mina queremos levar até África o verdadeiro espírito do Natal. Ou seja, levar até aos humanos que passam fome em África alguma comidinha e proporcionar-lhes assim algum conforto.
- Isso é realmente um assunto muito importante e interessante. Continua, sou todos ouvidos.
- Vamos, juntamente com os outros pardais e os nossos amigos pombos, recolher migalhas, milho e centeio. Como somos pequeninos e não conseguimos voar com muito peso, precisamos que alguém nos ajude e leve o que conseguirmos recolher. Será que nos pode ajudar assim como os outros grifos seus amigos?
- Claro que sim! Isso nem se pergunta. Tenho a certeza que os meus amigos vão aderir logo a esta ideia e empenhar-se nesta missão tão nobre.
- Que bom! Vamos já começar, que diz?
- O que digo? Mãos à obra meu rapaz! Nunca é cedo demais para partilhar o verdadeiro espírito de Natal.

Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

Queres saber mais sobre as aves que participam nesta estória? Então vai ver:
Pardal: http://www.avesdeportugal.info/pasdom.html
Pombo: http://www.avesdeportugal.info/colpal.html
Grifo: http://www.avesdeportugal.info/gypful.html
E sobre o Natal: http://pt.wikipedia.org/wiki/Natal


* * * A todos os visitantes e apoiantes deste projecto deixo aqui
os meus sinceros votos de que o espírito de Natal brilhe
nos vossos lares e corações.
Um muito Feliz Natal! * * *


sábado, 28 de novembro de 2009

Condomínio Ciconiforme


- Ó mãe, mãããe!...... Mãe!!!....... Mãããããããããeeee!
- Pimpolha, filha, não grites! Não vês que estou a conversar com a vizinha?
- Mas mãe…
- Nem mãe, nem meio mãe. Acalma-te que estou a ter uma conversa muito importante com a D. Micas. Continue vizinha, estava a dizer que aqueles vizinhos novos são um bocado estranhos… Então… e porquê?
- Digo-lhe vizinha, são mesmo estranhos. Para já, embora tenham algumas semelhanças connosco… Bom, têm duas asas e duas patas, não é? Mas… são de outra cor, cinzentos… são mais baixinhos… Não sei, não me agradam… são diferentes.
- Hum… realmente, quando aqui chegaram reparei que têm uma forma diferente de voar da nossa, retraiem o pescoço e batem as asas lenta e pesadamente. Ao longe até me assustaram, cheguei a pensar que seriam águias e temi pelos nossos pequenotes.
- Sabe, é nestas alturas que fico contente por viver num condominio como o nosso, afinal em cada ramo temos um vizinho, a proximidade faz-me sentir mais segura. Mas agora com aqueles vizinhos estranhos… diferentes!... não sei, não.
- Ó mãe quando é que o pai chega do trabalho?
- Lá estás tu a interromper! Não sei Pimpolha. Foi levar um lindo bebé a um casal de humanos lá para cima, para os lados de Guimarães e concerteza vai chegar muito tarde.
- Sabe vizinha, encontrei o seu marido precisamente quando ele ía a sair. Coitado, estava a queixar-se que o bebé era muito pesado, um rapagão bochechudo mas tão bonito e tão cutchi-cutchi-cutchi!
- Já disse várias vezes ao meu Manéli, “Manéli tens de te reformar, já não tens saúde para isto homem”. Mas ele responde que não há nada que o faça mais feliz do que ver a felicidade estampada na cara de cada casal a que ele entrega um bebé. E quando são dois? Ele diz que até chora de comoção! Ái, ái, é assim o meu Manéli, um sentimentalão! Tem um coração do tamanho do mundo!
- Mãe, estive a falar com os vizinhos novos.
- O quê Pimpolha?!! O que é que já te disse sobre falares com estranhos? Nunca faças isso, podem enganar-te com conversas matreiras e fazer-te mal. Não quero dizer que todos os estranhos sejam maus, mas é preciso ter cuidado. Repito, és muito pequenina e podes ser facilmente enganada.
- Mãe, não te preocupes, estava lá também o Sr. Nónio. Aliás, foi ele que conversou com os vizinhos novos, eu fiquei a ouvir.
- Ah, assim fico mais descansada.
- Sabes, eles não entregam bebés como nós.
- Não?!!!
- Não.
- Eu bem digo vizinha, são mesmo estranhos!
- Não são, não! Mãe, D. Micas, as garças são um bocadinho diferentes de nós mas são muito, muito simpáticas. Elas contaram que andam de condominio em condominio a ver se existe alguém que precise de ajuda, como por exemplo, uma cegonha que já não possa voar, e trazem-lhe peixinho para comer. E mais, recrutam outras aves para ajudar também. Assim, quando se vão embora, fica alguém a tomar conta dessa cegonha.
- Ahhh, e eu que pensava que mais ninguém tinha um coração tão grande como o meu Manéli!
- Pois é mãe, pois é D. Micas, não devemos recear e julgar quem é diferente de nós, de outro tamanho, de outra cor… Primeiro devemos saber como realmente são!
- E não querem ver que tenho uma filhota que sabe dar bons conselhos! Tenho muito orgulho de ti, minha Pimpolha!
- Isso quer dizer que hoje posso repetir a sobremesa? Posso, posso?
- Não abuses!… hehehe



Queres saber mais sobre as aves que participam nesta estória? Então vai ver:
Cegonha-branca:
http://www.avesdeportugal.info/ciccic.html

Garça-real:
http://www.avesdeportugal.info/ardcin.html



Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Ostraceiro da Paixão


O ostraceiro da Paixão é um bicho vaidozito
pica por todos os cantos, pica, pica, com jeitito


Passa a vida no picanço sempre em volta dos pés dele
Pica aqui e pica ali, mas nunca se pica a ele


Tem pintinha de vaidoso, é bonito, ar de gingão
Papa ostras e peixinhos, o ostraceiro da Paixão


Entra mudo e sai calado, neste charco onde apareceu
Gosta do som do calado, às vezes enamorado, leva no bico o que deu


Vagueia por muitos mares, águas salgadas e rios
P'ra ele não há fronteiras, a vida são desafios


Tem tempos de solidão, tem momentos de alegria
Quando se fala de amor, o ostraceiro, ele até pia


Agora vejam-no bem, com esta peço perdão
Estava à espera destes versos, o ostraceiro da Paixão


Texto de Rui J. Santos (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 24 de outubro de 2009

Pimpas e Pampi


- Meninos, meninos! Então, o que se passa? Porque estão novamente a brigar?

- Óh pai, foi o Pimpas que começou.

- Não fui, não. Foste tu! É sempre a mesma coisa… queixinhas!

- Vá lá, acalmem-se. Assim não pode ser, ultimamente andam sempre a embirrar e a implicar um com o outro e volta e meia a brigar. Isto assim não pode ser! Aliás, não vos percebo, tão amigos que vocês eram… Ái que saudades de quando vocês eram pequeninos, sempre tão amigos. Os outros gamos até comentavam “Que sorte que o senhor teve, dois filhotes lindos e tão amigos um do outro. Dá gosto ver!”.

Ainda me lembro tão bem daquela vez que tu, Pampi, perdeste as tuas bolotas de brincar. Foi num fim de Verão que as encontraste junto a uma árvore, esquecidas por um esquilo que andava a guardá-las para o Inverno. Andavam sempre os dois a brincar com elas mas era o Pampi quem tinha uma dedicação especial por elas.

Veio o Outono e as árvores começaram a deixar cair as suas folhas. Uma noite fez muito vento e quando acordámos de manhã estava tudo coberto de folhas secas. Tinhas deixado as tuas bolotas n
o chão, no sítio onde tinham andado a brincar com elas. Quando as foram procurar… estava tudo coberto de folhas e as bolotas escondidinhas debaixo delas. Ficaste desconsolado, Pampi. Tão triste!

E tu, Pimpas, com pena do teu irmão, começaste a procurar debaixo de cada folha. Que paciência! Os dois passaram horas à procura e, como a persistência dá bons frutos, lá foram encontradas pelo Pimpas.

Eu apreciava esta cena ternurenta, de vocês os dois tão unidos, escondido atrás de uma árvore.


- Lembro-me bem disso… Pampi, desculpa! Prometo que nunca mais volto a implicar contigo.

- Deixa lá, mano. Eu às vezes também faço de propósito para chamar a tua atenção… Agora só ligas aos teus novos amigos…

- Tenho uma ideia, vamos ter com os meus amigos e só brinco com eles se te deixarem entrar na brincadeira também. Vamos?

- Vamos! Podemos pai?

- Claro, vão lá divertir-se. Mas já sabem, estejam em casa a horas do jantar.

Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 12 de setembro de 2009

A árvore que vivia triste



No bosque encantado existia uma árvore que vivia muito triste, porque dos seus galhos nunca uma flor brotou. Só folhas!

Uma abelhinha aproximou-se dela cantando:

- Zumm... zumm... zumm... Que árvore feia! Só tem folhas! E as flores, onde estão?
Amiga Zézé, o que vamos fazer?

Aí a amiga que a acompanhava continuava calada e a observar. Eis, então, que afirmou:

- Aqui não fico, pois preciso levar um pouco de mel para a minha colmeia.

Vocês sabem o que é uma colmeia? É a casinha das abelhas. É ali que elas moram e fabricam o mel, que é um óptimo alimento.

As abelhinhas são muito trabalhadoras pois retiram o néctar das flores, depois levam-no para a colmeia e ali o depositam. Hoje, amanhã, depois... E vão formando o mel tão saboroso.

Digam-me lá, vocês já provaram um favo de mel? Hum! Como é gostoso!

Bem, voltemos à nossa história.

A abelhinha continuou a dizer:

- Como esta árvore não tem flores, vou-me embora.


Chegou em seguida uma linda borboleta e, voando em torno da árvore, comentou:


- Como é triste esta árvore! Não tem nenhuma flor! As flores é que alegram a vida.


Vocês sabiam que as borboletas põem ovinhos nas folhas das plantas, e desses ovinhos nascem uma porção de lagartas que um dia se transformam de novo em lindas borboletas?
Como é maravilhosa a natureza!


Vieram também alguns passarinhos, mas não gostaram de fazer os seus ninhos na árvore sem flores, por isso também eles não ficaram lá.

A noite já começava a espreitar, quando de repente um menino se aproximou da árvore e disse:

- Estou tão cansado que vou deitar-me debaixo dessa árvore.

Deitou-se e dormiu. A árvore, no seu silêncio, pensou: "Como ele está cansado... Deve estar sentindo frio! Vou derrubar as minhas folhas sobre ele, para lhe servirem de agasalho, assim ele ficará quentinho".

Quando amanheceu, o menino acordou e disse admirado:

- Tantas folhas. Dormi tão bem! Como esta árvore é boa e generosa! Agasalhou-me com as suas folhas! Vou agradecer-lhe.

Pensou, pensou e pensou... Lembrou-se, através dos seus poderes mágicos, de a transformar na árvore mais bela e alegre do bosque.

Virou-se para a árvore e disse- lhe:

- De hoje em diante, dos teus galhos brotarão flores multicores, para que todos se sintam felizes e tu também passes a sentir-te bem contigo própria.

E a magia aconteceu. A árvore ficou linda, vestida com muitas cores.



Voltaram as abelhinhas, a borboleta e os passarinhos, e todos disseram:

- Como estás bonita, perfumada e alegre! És a árvore mais linda que existe! Viremos sempre visitar-te!

E como todos estavam contentes, cantaram junto das formosas flores.

Texto de Teresa Escoval (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Pernilongo distraído


- Ei, Longos! Sempre vens ou não?
- Pá, ‘tou feito! Não me aborreças agora!
- Mas, já tínhamos combinado há bué, meu! Hoje é a final. Super importante!
- Importante? Nada é mais importante do que isto! Só te digo que ‘tou feito à posta!
- À posta? ‘Tás bem?
- Que é que achas? Estou feito, já te disse. Olha, Pernas, diz ao pessoal que hoje não vai dar. Quero lá saber da final! Rico final vou eu ter!
- Queres dizer-me o que se está a passar? Quem te vir diz que és tonto, Longos. Já está lá tudo à espera, só faltas tu. Daqui a nada, ficas com as pernas brancas. Uhuh! Que cena marada! O Longos de perna branca. Vais levar um baile!
Ah! É verdade, a tua mãe queria falar contigo. Passei lá para te ir buscar e ela disse-me…
- Ai! Não quero saber! Não quero saber! Vou levar é das poucas, isso é que vou. Deixa-me, Pernas. Se me livro desta juro… juro… sei lá, que nunca mais venho nadar com aquela cena.
- Mas que cena? Cenas ‘tás é a fazer tu, aqui, ora vai abaixo, ora vem acima, ora baixa o traseiro, ora tira. Nem a nadar estás, qual é? Olha, a tua mãe mandou…
- Qual é? Não me fales na minha mãe que me passo! Já viste um jovem pernilongo à beira dum ataque de nervos?
- Olha-me este! E se me dissesses o que se passa, hã? Mas deixa-me dizer-te o que a tua mãe…
- Esquece a tua tia, Pernas! Nunca a viste virada, pois não?
- Longos, já nos conhecemos desde sempre, bolas! Diz lá que eu ajudo-te. Não há-de ser nada do outro mundo…
- Vai ser, se eu voltar para casa e disser à minha mãe o que aconteceu!
- A tia Longuita? Ái que já não estou a perceber nada! Ela nunca te bateu, meu!
- Mas desta, levo por todas as que fiz e que não fiz, acredita!
- Bom! Diz lá o que fizeste. Sou teu amigo ou não sou? Se quiseres até digo à tua mãe que fui eu. A mim ela não me diz nada, ou antes, disse. Pediu para…
- Disse que tu és super organizado, não foi? Ela ‘tá sempre a dizer-me: “Longuitos, Longuitos! És tão distraído, filho! Podias ser como o Pernitas. Mas não! Deixas tudo em qualquer lado, nunca sabes onde puseste as coisas. Depois andas aflito. E patati e patatá…
- Isso é o que ela te diz! A minha mãe está sempre a dizer-me que eu leio até altas horas! Que estrago a vista!...
- Eh!Eh! Agora até me fizeste rir, e eu não me posso rir, ouviste? E não me fales em vista! Olha, é assim, e, se deres ao bico, eu ‘tou feito, mas tu, Pernas, começa já a dar de patas porque digo ao pessoal que não adormeces sem ser com a luz acesa.
- Pá, essa não, meu! ’Tás-me a gozar? Prometeste que não abrias nunca o bico, ‘Gus!
Vais dizer-me ou não? Vamos ficar aqui o dia todo? Já ‘tou com as pernas a doer.
- A minha mãe diz-me sempre para eu não usar as lentes quando vou nadar, né? E já viste quantas me comprou este ano. Até me cortou a mesada.
- Pois cortou e quem se tem que chegar à frente sou sempre eu.
- Então, acordei cedo e pensei em vir nadar e pus as lentes.
Estava o nosso Longos a contar e não reparava, aflito que estava, que o primo já se ria como um perdido.
- Ainda gozas? Pá, perdi as lentes! Eu ‘tou feito! Pára de te rir e ajuda-me a procurar.
- Longos! Queres ouvir-me?
- Quero que me ajudes! Sem as lentes é que eu não saio daqui!
- Tu não perdeste nada, meu!
- Não perdi o quê? Estou-te a dizer que não consigo ver direito, já nem sei se é do nervoso, se é de quê!
- Longoooooos!
O Longos olhou e viu que o primo tinha uma caixinha na asa!
- Pernas! Também vais usar lentes? Queres ver que é de família?
- Longos! São as tuas lentes, meu!
- Bolas! Viste-me aqui aflito! Já me imaginava sem mesada para a vida inteira!
Que alívio! Desta já me safei! Olha, que é que queria a minha mãe dizer-me?
- A tua mãe pediu que te trouxesse as lentes, trengo!
- Podias ter-me dito logo!
O Pernas pousou a asa no ombro do primo e disse a rir:
- És mesmo um Longas, ó Longos! ‘Bora lá que o resto do grupo já deve ‘tar é seco de esperar.

Texto de Cristina Miranda - Blogue: Lugarejo de Palavras (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 11 de julho de 2009

Osvaldo - O Caranguejo–Marinheiro


Chove torrencialmente. As crianças encostam os rostos tristonhos à janela que espreita, sorrateira, o vasto jardim que rodeia alegremente o blogue da Helena.

As árvores tremem agitadamente face ao frio que, impiamente, as pequeninas folhas dos seus ramos parece devorar. Insaciavelmente.

Estamos, contudo, em pleno mês de Julho. As crianças acordaram cedo. Vestiram-se de cor e alegria e por entre baldes, pás, moinhos de vento e tantos outros apetrechos e ternos sorrisos preparavam-se para a sua primeira ida à praia.

Lilly contempla as crianças sentada no conforto do amplo sofá. O cesto com as sandes de queijo e os bolinhos de coco descansa, contrariado, na mesa da cozinha. As bebidas, ainda frescas, tentam aquecer-se dançando sobre a toalha branca com motivos de mar.

Algumas lágrimas rolam sob os rostos incrédulos que colados ao vidro, agora baço, tentam, em vão, avistar ao longe os preciosos raios de sol.

Lilly abre um pequeno livro em forma de concha. Sente-se a maresia invadir a sala. As crianças correm para junto de si e com os olhinhos reluzentes aguardam, impacientes, a história por contar.

Fala de uma praia distante. Um lugar de sonho no qual Osvaldo, o caranguejo–marinheiro, transporta no seu velho barco a remos um grupo de turistas. Ouve-se o canto das sereias que acompanha o bater ritmado das ondas na proa do barco.

As crianças sorriem. Entram no pequeno barco e deixam-se conduzir a uma pequenina praia banhada por búzios e algas multicolores. A água tépida e límpida deixa antever o bailado cronometrado dos inúmeros peixes que, sob as longas caudas, parecem pintar uma tela no fundo do mar.

As crianças sentem o sol bater nas suas faces. O tapete da sala transforma-se num suave areal que conforta os seus pezinhos descalços.

Lilly está radiante. Osvaldo fala dos seus feitos heróicos e alerta as crianças para os segredos escondidos na suavidade das ondas que beijam, docemente, o casco do barco.

O sonho interrompe-se por breves instantes. Batem à porta. Quem será?
Lilly apressa-se, curiosa, e o silêncio irrompe a sala …
A porta está totalmente aberta. O sol invade o amplo espaço e um encorpado caranguejo, em tons de vermelho–fogo, espreita timidamente dizendo:

“Olá. Sou o Osvaldo – o caranguejo–marinheiro. Estava de caminho para casa quando avistei este belíssimo jardim e resolvi espreitar … Posso entrar?”.

Texto de Carla Alves - Blogue: Velas ao Vento (Todos os direitos de autor reservados)

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