Bem-vindos ao “Estórias de Bicharocos e Bicharada”, um blogue dos 7 aos 77 anos

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O Ostraceiro da Paixão


O ostraceiro da Paixão é um bicho vaidozito
pica por todos os cantos, pica, pica, com jeitito


Passa a vida no picanço sempre em volta dos pés dele
Pica aqui e pica ali, mas nunca se pica a ele


Tem pintinha de vaidoso, é bonito, ar de gingão
Papa ostras e peixinhos, o ostraceiro da Paixão


Entra mudo e sai calado, neste charco onde apareceu
Gosta do som do calado, às vezes enamorado, leva no bico o que deu


Vagueia por muitos mares, águas salgadas e rios
P'ra ele não há fronteiras, a vida são desafios


Tem tempos de solidão, tem momentos de alegria
Quando se fala de amor, o ostraceiro, ele até pia


Agora vejam-no bem, com esta peço perdão
Estava à espera destes versos, o ostraceiro da Paixão


Texto de Rui J. Santos (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 24 de Outubro de 2009

Pimpas e Pampi


- Meninos, meninos! Então, o que se passa? Porque estão novamente a brigar?

- Óh pai, foi o Pimpas que começou.

- Não fui, não. Foste tu! É sempre a mesma coisa… queixinhas!

- Vá lá, acalmem-se. Assim não pode ser, ultimamente andam sempre a embirrar e a implicar um com o outro e volta e meia a brigar. Isto assim não pode ser! Aliás, não vos percebo, tão amigos que vocês eram… Ái que saudades de quando vocês eram pequeninos, sempre tão amigos. Os outros gamos até comentavam “Que sorte que o senhor teve, dois filhotes lindos e tão amigos um do outro. Dá gosto ver!”.

Ainda me lembro tão bem daquela vez que tu, Pampi, perdeste as tuas bolotas de brincar. Foi num fim de Verão que as encontraste junto a uma árvore, esquecidas por um esquilo que andava a guardá-las para o Inverno. Andavam sempre os dois a brincar com elas mas era o Pampi quem tinha uma dedicação especial por elas.

Veio o Outono e as árvores começaram a deixar cair as suas folhas. Uma noite fez muito vento e quando acordámos de manhã estava tudo coberto de folhas secas. Tinhas deixado as tuas bolotas n
o chão, no sítio onde tinham andado a brincar com elas. Quando as foram procurar… estava tudo coberto de folhas e as bolotas escondidinhas debaixo delas. Ficaste desconsolado, Pampi. Tão triste!

E tu, Pimpas, com pena do teu irmão, começaste a procurar debaixo de cada folha. Que paciência! Os dois passaram horas à procura e, como a persistência dá bons frutos, lá foram encontradas pelo Pimpas.

Eu apreciava esta cena ternurenta, de vocês os dois tão unidos, escondido atrás de uma árvore.


- Lembro-me bem disso… Pampi, desculpa! Prometo que nunca mais volto a implicar contigo.

- Deixa lá, mano. Eu às vezes também faço de propósito para chamar a tua atenção… Agora só ligas aos teus novos amigos…

- Tenho uma ideia, vamos ter com os meus amigos e só brinco com eles se te deixarem entrar na brincadeira também. Vamos?

- Vamos! Podemos pai?

- Claro, vão lá divertir-se. Mas já sabem, estejam em casa a horas do jantar.

Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 12 de Setembro de 2009

A árvore que vivia triste



No bosque encantado existia uma árvore que vivia muito triste, porque dos seus galhos nunca uma flor brotou. Só folhas!

Uma abelhinha aproximou-se dela cantando:

- Zumm... zumm... zumm... Que árvore feia! Só tem folhas! E as flores, onde estão?
Amiga Zézé, o que vamos fazer?

Aí a amiga que a acompanhava continuava calada e a observar. Eis, então, que afirmou:

- Aqui não fico, pois preciso levar um pouco de mel para a minha colmeia.

Vocês sabem o que é uma colmeia? É a casinha das abelhas. É ali que elas moram e fabricam o mel, que é um óptimo alimento.

As abelhinhas são muito trabalhadoras pois retiram o néctar das flores, depois levam-no para a colmeia e ali o depositam. Hoje, amanhã, depois... E vão formando o mel tão saboroso.

Digam-me lá, vocês já provaram um favo de mel? Hum! Como é gostoso!

Bem, voltemos à nossa história.

A abelhinha continuou a dizer:

- Como esta árvore não tem flores, vou-me embora.


Chegou em seguida uma linda borboleta e, voando em torno da árvore, comentou:


- Como é triste esta árvore! Não tem nenhuma flor! As flores é que alegram a vida.


Vocês sabiam que as borboletas põem ovinhos nas folhas das plantas, e desses ovinhos nascem uma porção de lagartas que um dia se transformam de novo em lindas borboletas?
Como é maravilhosa a natureza!


Vieram também alguns passarinhos, mas não gostaram de fazer os seus ninhos na árvore sem flores, por isso também eles não ficaram lá.

A noite já começava a espreitar, quando de repente um menino se aproximou da árvore e disse:

- Estou tão cansado que vou deitar-me debaixo dessa árvore.

Deitou-se e dormiu. A árvore, no seu silêncio, pensou: "Como ele está cansado... Deve estar sentindo frio! Vou derrubar as minhas folhas sobre ele, para lhe servirem de agasalho, assim ele ficará quentinho".

Quando amanheceu, o menino acordou e disse admirado:

- Tantas folhas. Dormi tão bem! Como esta árvore é boa e generosa! Agasalhou-me com as suas folhas! Vou agradecer-lhe.

Pensou, pensou e pensou... Lembrou-se, através dos seus poderes mágicos, de a transformar na árvore mais bela e alegre do bosque.

Virou-se para a árvore e disse- lhe:

- De hoje em diante, dos teus galhos brotarão flores multicores, para que todos se sintam felizes e tu também passes a sentir-te bem contigo própria.

E a magia aconteceu. A árvore ficou linda, vestida com muitas cores.



Voltaram as abelhinhas, a borboleta e os passarinhos, e todos disseram:

- Como estás bonita, perfumada e alegre! És a árvore mais linda que existe! Viremos sempre visitar-te!

E como todos estavam contentes, cantaram junto das formosas flores.

Texto de Teresa Escoval (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

O Pernilongo distraído


- Ei, Longos! Sempre vens ou não?
- Pá, ‘tou feito! Não me aborreças agora!
- Mas, já tínhamos combinado há bué, meu! Hoje é a final. Super importante!
- Importante? Nada é mais importante do que isto! Só te digo que ‘tou feito à posta!
- À posta? ‘Tás bem?
- Que é que achas? Estou feito, já te disse. Olha, Pernas, diz ao pessoal que hoje não vai dar. Quero lá saber da final! Rico final vou eu ter!
- Queres dizer-me o que se está a passar? Quem te vir diz que és tonto, Longos. Já está lá tudo à espera, só faltas tu. Daqui a nada, ficas com as pernas brancas. Uhuh! Que cena marada! O Longos de perna branca. Vais levar um baile!
Ah! É verdade, a tua mãe queria falar contigo. Passei lá para te ir buscar e ela disse-me…
- Ai! Não quero saber! Não quero saber! Vou levar é das poucas, isso é que vou. Deixa-me, Pernas. Se me livro desta juro… juro… sei lá, que nunca mais venho nadar com aquela cena.
- Mas que cena? Cenas ‘tás é a fazer tu, aqui, ora vai abaixo, ora vem acima, ora baixa o traseiro, ora tira. Nem a nadar estás, qual é? Olha, a tua mãe mandou…
- Qual é? Não me fales na minha mãe que me passo! Já viste um jovem pernilongo à beira dum ataque de nervos?
- Olha-me este! E se me dissesses o que se passa, hã? Mas deixa-me dizer-te o que a tua mãe…
- Esquece a tua tia, Pernas! Nunca a viste virada, pois não?
- Longos, já nos conhecemos desde sempre, bolas! Diz lá que eu ajudo-te. Não há-de ser nada do outro mundo…
- Vai ser, se eu voltar para casa e disser à minha mãe o que aconteceu!
- A tia Longuita? Ái que já não estou a perceber nada! Ela nunca te bateu, meu!
- Mas desta, levo por todas as que fiz e que não fiz, acredita!
- Bom! Diz lá o que fizeste. Sou teu amigo ou não sou? Se quiseres até digo à tua mãe que fui eu. A mim ela não me diz nada, ou antes, disse. Pediu para…
- Disse que tu és super organizado, não foi? Ela ‘tá sempre a dizer-me: “Longuitos, Longuitos! És tão distraído, filho! Podias ser como o Pernitas. Mas não! Deixas tudo em qualquer lado, nunca sabes onde puseste as coisas. Depois andas aflito. E patati e patatá…
- Isso é o que ela te diz! A minha mãe está sempre a dizer-me que eu leio até altas horas! Que estrago a vista!...
- Eh!Eh! Agora até me fizeste rir, e eu não me posso rir, ouviste? E não me fales em vista! Olha, é assim, e, se deres ao bico, eu ‘tou feito, mas tu, Pernas, começa já a dar de patas porque digo ao pessoal que não adormeces sem ser com a luz acesa.
- Pá, essa não, meu! ’Tás-me a gozar? Prometeste que não abrias nunca o bico, ‘Gus!
Vais dizer-me ou não? Vamos ficar aqui o dia todo? Já ‘tou com as pernas a doer.
- A minha mãe diz-me sempre para eu não usar as lentes quando vou nadar, né? E já viste quantas me comprou este ano. Até me cortou a mesada.
- Pois cortou e quem se tem que chegar à frente sou sempre eu.
- Então, acordei cedo e pensei em vir nadar e pus as lentes.
Estava o nosso Longos a contar e não reparava, aflito que estava, que o primo já se ria como um perdido.
- Ainda gozas? Pá, perdi as lentes! Eu ‘tou feito! Pára de te rir e ajuda-me a procurar.
- Longos! Queres ouvir-me?
- Quero que me ajudes! Sem as lentes é que eu não saio daqui!
- Tu não perdeste nada, meu!
- Não perdi o quê? Estou-te a dizer que não consigo ver direito, já nem sei se é do nervoso, se é de quê!
- Longoooooos!
O Longos olhou e viu que o primo tinha uma caixinha na asa!
- Pernas! Também vais usar lentes? Queres ver que é de família?
- Longos! São as tuas lentes, meu!
- Bolas! Viste-me aqui aflito! Já me imaginava sem mesada para a vida inteira!
Que alívio! Desta já me safei! Olha, que é que queria a minha mãe dizer-me?
- A tua mãe pediu que te trouxesse as lentes, trengo!
- Podias ter-me dito logo!
O Pernas pousou a asa no ombro do primo e disse a rir:
- És mesmo um Longas, ó Longos! ‘Bora lá que o resto do grupo já deve ‘tar é seco de esperar.

Texto de Cristina Miranda - Blogue: Lugarejo de Palavras (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 11 de Julho de 2009

Osvaldo - O Caranguejo–Marinheiro


Chove torrencialmente. As crianças encostam os rostos tristonhos à janela que espreita, sorrateira, o vasto jardim que rodeia alegremente o blogue da Helena.

As árvores tremem agitadamente face ao frio que, impiamente, as pequeninas folhas dos seus ramos parece devorar. Insaciavelmente.

Estamos, contudo, em pleno mês de Julho. As crianças acordaram cedo. Vestiram-se de cor e alegria e por entre baldes, pás, moinhos de vento e tantos outros apetrechos e ternos sorrisos preparavam-se para a sua primeira ida à praia.

Lilly contempla as crianças sentada no conforto do amplo sofá. O cesto com as sandes de queijo e os bolinhos de coco descansa, contrariado, na mesa da cozinha. As bebidas, ainda frescas, tentam aquecer-se dançando sobre a toalha branca com motivos de mar.

Algumas lágrimas rolam sob os rostos incrédulos que colados ao vidro, agora baço, tentam, em vão, avistar ao longe os preciosos raios de sol.

Lilly abre um pequeno livro em forma de concha. Sente-se a maresia invadir a sala. As crianças correm para junto de si e com os olhinhos reluzentes aguardam, impacientes, a história por contar.

Fala de uma praia distante. Um lugar de sonho no qual Osvaldo, o caranguejo–marinheiro, transporta no seu velho barco a remos um grupo de turistas. Ouve-se o canto das sereias que acompanha o bater ritmado das ondas na proa do barco.

As crianças sorriem. Entram no pequeno barco e deixam-se conduzir a uma pequenina praia banhada por búzios e algas multicolores. A água tépida e límpida deixa antever o bailado cronometrado dos inúmeros peixes que, sob as longas caudas, parecem pintar uma tela no fundo do mar.

As crianças sentem o sol bater nas suas faces. O tapete da sala transforma-se num suave areal que conforta os seus pezinhos descalços.

Lilly está radiante. Osvaldo fala dos seus feitos heróicos e alerta as crianças para os segredos escondidos na suavidade das ondas que beijam, docemente, o casco do barco.

O sonho interrompe-se por breves instantes. Batem à porta. Quem será?
Lilly apressa-se, curiosa, e o silêncio irrompe a sala …
A porta está totalmente aberta. O sol invade o amplo espaço e um encorpado caranguejo, em tons de vermelho–fogo, espreita timidamente dizendo:

“Olá. Sou o Osvaldo – o caranguejo–marinheiro. Estava de caminho para casa quando avistei este belíssimo jardim e resolvi espreitar … Posso entrar?”.

Texto de Carla Alves - Blogue: Velas ao Vento (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 21 de Abril de 2009

Quem mexeu no meu pão?

Quem mexeu no meu pão?!!!... Esta gente sem vergonha mete o bico em todo o lado menos nos seus próprios pratos. Mal se olha para o lado lá estão eles a gamar ou a tentar... são piores que aquela gente que passa o tempo todo a debicar na vida alheia. Arre que são piores que as comadres!!! A essas ainda podemos virar as costas e ignorar. É o mal de viver num bairro antigo e dito típico de Lisboa... quadrilheiras e ladrões de conveniência são às carradas ... é mais fácil tropeçar nesses do que numa pedra da calçada ... até porque afinal de contas tenho asas.

Deixa cá pegar no meu pão e levá-lo para lugar seguro. Estes bicharocos de quatro patas, nariz afiado e muito pêlo não são de confiança. Bem que a LisSecuritum dava aqui jeito ... huum ... boa ideia!!! Vou chamá-los, pois aqui terão muito trabalho para fazer e até estou a fazer um favor a estes humanos, que nem se apercebem dos perigos que correm ao ter estes roedores por perto. É isso mesmo... vou ligar-lhes!

triim triim

- LisSecuritum bom dia!

- Muito bom dia senhores. Gostaria de vos informar que o Bairro Alto tem imensos roedores e que estão sempre a tentar roubar-nos a comida oferecida pelos humanos. São uma praga total.

- Muito bem! É uma parte da cidade que já tinhamos intenção de inspeccionar, mas de facto ainda não temos pessoal suficiente para cobrir todas as áreas.

- Pois acredito que tenham mesmo muito trabalho a tentar controlar roedores e as malucas das pombas, mas essas não se chegam quando estou por lá.

- Estou a ver que pelo menos é temido pelas pombas, isso é muito bom e seria útil para nós termos um vigilante assim. Será que gostaria de integrar o nosso quadro de vigias?

- É uma proposta tentadoramente interessante, mas tenho o meu emprego.

- Bem, apenas precisaria de nos informar sobre as ocorrências que vai registando, no dia-a-dia, junto dos moradores do Bairro. Será atribuída uma pequena recompensa por cada alerta válido.

- Muito bem, aceito. Podem contar comigo!

- Agradecemos a sua colaboração e vamos enviar uma equipa imediatamente. Diga-nos onde aconteceu o incidente.

- A meio da linha do Elevador da Bica.

- Percebido e registado. Mais uma vez agradecemos a sua colaboração e bem vindo aos quadros da LisSecuritum! Apenas solicitamos que passe pela nossa sede de forma a formalizar o contrato.

- Concerteza! Hoje à tarde passarei por aí.

- Então até logo!

- Até logo!

Bem, deixa-me cá pirar e levar a paparoca para o telhado. Agora que fiz a minha boa acção do dia vou refastelar-me com um almoço com vista para o Tejo!!

Texto de Sandra Marques - Blogues: Nas Asas dos Sonhos e Chocolate PB (Todos os direitos de autor reservados)

sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Uma família delicada


Foi quando os ouvi no meu jardim...

Hoop! Hoop! Hoop! Fazia Dom Poupa Delicado, chamando Dona Poupa Delicadeza, já tendo preparado a refeição dos dois, bicando por todo o lado em diferentes direcções, procurando minhocas que ele bem sabia ser o prato preferido dela.

Repetiu o seu chamamento, Hoop! Hoop! Hoop! Como tardava Dona Poupa Delicadeza, pensava impaciente Dom Poupa Delicado, que ensaiou um voo mostrando as suas belas asas todas riscadas de preto e branco, tal como o topo da poupa.

Espreita da cavidade de uma árvore Dona Poupa Delicadeza que chocava os seus ovos de cor azul esverdeada, que pareciam verdadeiros ovos da Páscoa, perguntando ao seu companheiro se não tinha visto o coelho.

- O coelho? Qual coelho? pergunta Dom Poupa Delicado.

- O coelho que roubou os nossos ovos no ano passado, respondeu triste Dona Poupa Delicadeza.

- Ah! O coelho da Páscoa!! Já foi embora! Mal o vi, chamei todos os pássaros e também o cão dono do jardim. O coelho mal viu o cão desapareceu correndo. Não tenhas medo este ano ninguém roubará os nossos ovos.

Hoop! Hoop! Hoop! Canta contente Dona Poupa Delicadeza e corre junto com Dom Poupa Delicado a comer as minhocas por ele preparadas.

Dias depois, dos belos ovos que pareciam pintados, nasceram as Poupinhas Delicadas.

Existia no meu jardim, mais uma família feliz.

Texto de Claras Manhãs (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 31 de Março de 2009

O importante é...

Uma população inteira de lebres permanecia em intenso burburinho à beira do rio. Os assobios e guinchos ecoavam por todo o vale e o som chegava às restantes populações que eram atraídas pela curiosidade até ao local. Metade da população desconhecia o ocorrido: a lebre Alpina, filha de um conceituado casal humilde com muitos filhos e considerada pelos habitantes do vale como uma aberração da sua espécie, desaparecera sob olhares atónitos de forma inacreditável, simplesmente caminhando sobre as águas do rio como se do solo se tratasse, até o vulto se diluir pelas brumas do fim da tarde.

Algumas lebres roídas de inveja aventuravam-se a entrar na água, convencidas que se uma moribunda era capaz de tal feito, elas também o seriam. Com o orgulho a crescer no focinho entravam na água umas atrás das outras.
- Ploff, ploff, ploff – O som das lebres a mergulharem na água ouvia-se acompanhado de gritos de socorro, aos quais as outras acudiam com canas e lianas para puxar as companheiras para a margem.
Feridas na vaidade, não davam o braço a torcer e justificavam que a Alpina já se teria afogado, que aquele caminhar sobre as águas fora uma ilusão colectiva ou ainda que teria sido possível por uns instantes devido a um arranque a alta velocidade. Tudo servia para não admitirem que a Alpina era uma lebre prodígio com poderes para além do mundo animal. Permaneciam na margem à espera de um regresso amontoando-se em número cada vez maior, como peregrinos num santuário à medida que a notícia se espalhava por outras terras.

As horas passaram e transformaram-se em dias. A margem do rio tornara-se num acampamento de tocas no meio das silvas e das giestas, as lebres enchiam minúsculos cântaros com água do rio que levavam para os abrigos e, apesar do discurso trocista das maldosas que teimavam em desacreditar a Alpina, ninguém parecia disposto a sair dali.
Quase três dias depois, ouve-se um grito ao longe. Alguém avistara um movimento nas águas e apontava para o rio. Todas as lebres se mantinham nas patas traseiras para verem melhor e de súbito, um feixe de luz emerge do cinzento das brumas. Aparece a Alpina caminhando sobre a água mais graciosa do que nunca, dirigindo-se à multidão de lebres na margem que a recebeu em estrondosos chios e aplausos, querendo tocar nela, fazer perguntas sobre tudo o que vira e ouvira, empurrando-se umas às outras de tal maneira que a Alpina era impedida de respirar. Alpina gritou à multidão que se acalmasse, que ela haveria de contar tudo a seu tempo. Fez-se silêncio na margem do rio, quebrado de vez em quando por um espirro, um assobio ou pelo disparo da máquina fotográfica da lebre Paixão, cujo sonho de mostrar os trabalhos ao mundo era motivo de chacota de outras lebres, que longe de a deitar abaixo, criavam nela uma força descomunal para seguir o caminho.
Assim que a ordem se instalou, Alpina começou a relatar a história.
- Na outra margem encontra-se um mundo fabuloso noutra dimensão, a preciosa jóia da existência onde as lebres, os lobos e os homens coexistem em harmonia e amizade, onde a riqueza é repartida de igual modo entre todos para que ninguém sofra privações.

A assembleia solta exclamações de espanto e as lebres que seguiam o caminho da maldade não reagiam, incomodadas. Numa nova tentativa de desacreditar a Alpina, gritaram "mentirosaaaaaaaa!, como sabemos que não inventas toda a história?” – sendo imediatamente silenciadas pelas outras lebres – Silêncio! – ordenara alguém na multidão. Alpina continuava o relato respondendo a perguntas que as mais próximas lhe faziam e, dirigindo-se novamente à multidão, fixando a lebre Paixão nos olhos, continuou:
- O essencial na vida deste lado da margem é estarmos em fascínio constante com o que nos rodeia, mesmo que sejamos perseguidas pelos predadores ou pelo homem que caça porque tudo faz parte do domínio da natureza. A sobrevivência encontra-se em nós e no caminho ou nos sonhos que seguirmos, será construído o destino.
Fixando ainda mais a lebre Paixão, continua:
- O importante é continuar a arranhar a máquina, insistindo nela tantas e tantas vezes quanto forem os desejos porque é assim que se fabricam os sonhos, da massa dos desejos e da força de vontade, nascem os verdadeiros castelos e mais, digo-lhes mais, qualquer uma de vós que tenha o coração puro será capaz de caminhar sobre as águas até a outra margem, basta que siga o passo que só tem uma direcção, para comigo atravessar este rio.

Texto de M. - Blogue: Citadel (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 23 de Março de 2009

Bichinhos brincalhões


Não sei se sabes rimar,
mas sei que podemos brincar
entre os teus braços e o meu olhar
juntos vamos nesta flor cantar!

À cabra-cega ou às escondidinhas
jogos de sempre e histórias de encantar
convido-te para com as tuas pintinhas
na roda te juntares e comigo dançar!

















Somos bichinhos de mil cores
numa fábula queremos entrar.
Afastamos aos pulos todas as dores
pois o que queremos é amar.

Assim aqui vivemos e sorrimos
em comunidade familiar
se és um dos verdadeiros amigos
contigo sabemos que podemos contar!


















Texto de Carla Marques - Blogue: Palavras em desalinho (Todos os direitos de autor reservados)

quinta-feira, 12 de Março de 2009

Lenga-lenga para uma aranha (II)

Tece a teia na aldeia
uma aranha muito feia.
Balanceia, papagueia
e come papas de aveia.
Na areia se bronzeia
até ser hora da ceia.
Quando vê a lua cheia
ela passeia à boleia.
Se pensa comer geleia
toda ela se maneia.
Esta aranha muito feia
que vive na nossa aldeia
quase nunca se penteia.
Seria uma boa ideia
ir visitar a colmeia
e de abelhas a ver cheia.
Mas não sai da sua teia
e se falo ela rabeia
e as patas esperneia.
Na aldeia tece a teia
uma aranha muito feia.


Texto de Luísa Azevedo - Blogues: banana ou chocolate? e Pin-Gente (Todos os direitos de autor reservados)

quinta-feira, 5 de Março de 2009

Lenga-lenga para uma aranha (I)


Bela aranha vem de Espanha,
amarela e não castanha.
Uma teia emaranha,
no meio daquela lenha.
Sopra o vento na montanha
e mais a aranha se empenha.
Vem de Espanha a bela aranha
e uma teia desenha.
Uma mosca logo apanha
que parece um pouco estranha.
O bicho se emaranha,
na bela teia da aranha.
Agora que se amanha
já não quer voltar a Espanha.
Fica cá a bela aranha
mais ninguém lá a apanha.


Texto de Luísa Azevedo - Blogues: banana ou chocolate? e Pin-Gente (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Lilly – O porto que fica para além da poesia (continuação)...


Lilly, a pequenina louva–a–deus, voava alegremente num céu de flores coloridas quando, de repente, um portão gigante lhe vedou o caminho.

Curiosa, espreitou! Os seus olhinhos reluzentes encheram–se de vida. “Que lugar magnifico!”. “Que jardim encantador”. “Que palavrinhas tão deliciosas para eu saborear, lentamente, ao serão”.

As suas asas encheram–se instantaneamente de brilho e Lilly, pegando no seu pincel imaginário, pintou–as em tons de festa.

Aproximou–se, destemida. O portão estendeu os seus braços levemente enferrujados e cumprimentou carinhosamente Lilly, oferecendo–lhe uma raríssima tulipa amarela recheada a rum e chocolate.

O cheiro a Primavera perfumou o seu elegante vestido e Lilly bateu, harmoniosamente, as asas deixando–se levitar. Dançou, incansável, ao som de lírios multicolores; cantou, melodiosamente, ao ritmo adocicado da sua harpa de algodão–doce que, lentamente, desfiava as notas (musicais) que saltavam da batuta do dócil maestro – o endiabrado esquilo tenor.

Lilly estava feliz! “Sim” “Ficarei aqui” “Este será o meu novo habitat”, pensava ela, enquanto todos os bicharocos do blogue a aplaudiam encantados. Adoravam Lilly – este ser mágico, irrequieto e cheio de alegria que tanta vida trouxe a este espaço.

Lilly sonhava acordada: já se imaginava a construir os pequeninos canteiros de flores que embalariam tanta poesia, tantas palavras soltas, envoltos em sabores e cores sem fim, construindo um verdadeiro puzzle de emoções.

Lilly agradecia, compassadamente, os aplausos e dando azo a tamanha alegria teceu um bailado impregnado de rara beleza: as suas elegantes asas cobriram–se de lantejoulas cor de champanhe e quando, no ar, delicadamente esvoaçavam polvilhavam o céu de pequeninas estrelas cintilantes.

À medida que as estrelinhas desciam Lilly acompanhava–as, suavemente, e conduzia–as ao lugar que, cada uma delas, ocuparia no blogue para que, a sua luz resplandecente, acompanhasse a leitura atenta de todos aqueles que, por aqui, quisessem passar.

Texto de Carla Alves - Blogue: Velas ao Vento (Todos os direitos de autor reservados)

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