Bem-vindos ao “Estórias de Bicharocos e Bicharada”, um blogue dos 7 aos 77 anos

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domingo, 20 de dezembro de 2009

Espírito de Natal

- Olá Zélito!... Oooops, que biquinho é esse? Que ar tão pensativo tens hoje.
- Olá.
…………
- Zélito à terra! Olááááá!
- Hum? Desculpa Mina, estava aqui perdido nos meus pensamentos.
- Pois, nota-se! Não me ligas nenhuma… Que se passa?
- É que… Sabes, andava como de costume entre as cadeiras daquele café ali à frente, à procura de migalhas e acabei por ouvir uma conversa entre uns humanos que me deixou muito triste.
- Triste?! Porquê?
- Estavam a falar sobre a época que muitos dos humanos agora festejam, chama-se Natal. Não percebi muito bem do que se trata, parece que há muitos, muitos anos nasceu um menino especial num sítio muito longe.
- E como se chamava esse menino?
- O menino chamava-se Jesus e nasceu em Belém. Como já disse, esse menino era muito especial, dizem que era filho de Deus e, tal como Deus, era muito bondoso e tinha como missão espalhar a boa vontade, a bondade, o carinho, a compaixão, a amizade e o Amor entre os homens, que estavam muito carentes destes sentimentos.
- Que lindo!!! E conseguiu?
- Parece que não… Estavam esses humanos precisamente a falar sobre isso. Nesta época do Natal celebra-se o nascimento desse menino mas hoje em dia os homens parecem ter esquecido a mensagem de Jesus e só se preocupam com os presentes.
- Presentes? E o que é isso?
- Também não percebi lá muito bem. Parece que compram coisas para dar uns aos outros.
- Coisas? Que coisas? Eu cá só me interesso por migalhinhas, umas sementes, enfim, paparoca! Hehehe
- Ah, mas os homens precisam de muito, mas mesmo muito mais coisas para se sentirem felizes. Não se contentam só em ter a barriguinha cheia como nós.
- Coitados!... Assim devem ter uma vida complicada.
- Complicadíssima!
- E ficaste triste por causa disso, foi?
- Não só por isso. Os tais humanos disseram ainda que há muitos homens, mulheres e crianças que nem sequer conseguem ter a barriguinha cheia, passam muita fome.
- Mas isso é simplesmente horrível!! E os outros deixam?!!??!! Tu trazes-me sempre umas migalhas quando não consigo desenvencilhar-me sozinha e o mesmo faço eu por ti.
- Eles disseram que poucos homens fazem isso uns pelos outros.
- Que triste!!! Ainda bem que nasci pardal! Depois do que me contaste, não gostava nada de ser humana.
- Pois, agora percebes porque estou assim?
- Claro!
………
- Zélito, tive uma ideia!
- Sim? Conta.
- Se não fazem eles, fazemos nós. Falamos com os outros pardais e tentamos recolher entre todos a maior quantidade possível de migalhinhas para esses humanos que passam fome.
- Boa Mina! Grande, grande ideia! Podemos falar também com os pombos, de certeza que eles vão querer ajudar. Ouvi os humanos dizerem ainda que uma das zonas do planeta onde há mais fome é África. Depois temos de fazer chegar lá as migalhas.
- Esse é um pequeno-grande detalhe que não sei como vamos resolver. África não fica do outro lado do mar? Nós não conseguimos voar até tão longe carregados com migalhas…
- Tens razão. Oh, assim nem vale a pena começar…
- Calma, vamos pensar bem. Havemos de encontrar uma solução.
- Só uma ave grande consegue fazer a travessia carregada de migalhas. Lembraste de alguém a quem possamos pedir ajuda?
- Ave grande? Tenho visto por aí uns grifos a passar. Pois é! Nesta altura eles estão em migração para… África!
- Boa!
- … e quem vai falar com eles? Eu tenho medo, são tããããããão grandes!
- São, sim. Mas não nos fazem mal. Eu vou lá falar com eles.
………
- Boa tarde Sr. Fulvus, posso dar-lhe uma palavrinha?
- Olá, quem és tu pirralho?
- Sou o Zélito e preciso de falar consigo sobre um assunto muito importante.
- Ah, sim?
- Sim! Eu e a minha amiga Mina queremos levar até África o verdadeiro espírito do Natal. Ou seja, levar até aos humanos que passam fome em África alguma comidinha e proporcionar-lhes assim algum conforto.
- Isso é realmente um assunto muito importante e interessante. Continua, sou todos ouvidos.
- Vamos, juntamente com os outros pardais e os nossos amigos pombos, recolher migalhas, milho e centeio. Como somos pequeninos e não conseguimos voar com muito peso, precisamos que alguém nos ajude e leve o que conseguirmos recolher. Será que nos pode ajudar assim como os outros grifos seus amigos?
- Claro que sim! Isso nem se pergunta. Tenho a certeza que os meus amigos vão aderir logo a esta ideia e empenhar-se nesta missão tão nobre.
- Que bom! Vamos já começar, que diz?
- O que digo? Mãos à obra meu rapaz! Nunca é cedo demais para partilhar o verdadeiro espírito de Natal.

Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

Queres saber mais sobre as aves que participam nesta estória? Então vai ver:
Pardal: http://www.avesdeportugal.info/pasdom.html
Pombo: http://www.avesdeportugal.info/colpal.html
Grifo: http://www.avesdeportugal.info/gypful.html
E sobre o Natal: http://pt.wikipedia.org/wiki/Natal


* * * A todos os visitantes e apoiantes deste projecto deixo aqui
os meus sinceros votos de que o espírito de Natal brilhe
nos vossos lares e corações.
Um muito Feliz Natal! * * *


sábado, 28 de novembro de 2009

Condomínio Ciconiforme


- Ó mãe, mãããe!...... Mãe!!!....... Mãããããããããeeee!
- Pimpolha, filha, não grites! Não vês que estou a conversar com a vizinha?
- Mas mãe…
- Nem mãe, nem meio mãe. Acalma-te que estou a ter uma conversa muito importante com a D. Micas. Continue vizinha, estava a dizer que aqueles vizinhos novos são um bocado estranhos… Então… e porquê?
- Digo-lhe vizinha, são mesmo estranhos. Para já, embora tenham algumas semelhanças connosco… Bom, têm duas asas e duas patas, não é? Mas… são de outra cor, cinzentos… são mais baixinhos… Não sei, não me agradam… são diferentes.
- Hum… realmente, quando aqui chegaram reparei que têm uma forma diferente de voar da nossa, retraiem o pescoço e batem as asas lenta e pesadamente. Ao longe até me assustaram, cheguei a pensar que seriam águias e temi pelos nossos pequenotes.
- Sabe, é nestas alturas que fico contente por viver num condominio como o nosso, afinal em cada ramo temos um vizinho, a proximidade faz-me sentir mais segura. Mas agora com aqueles vizinhos estranhos… diferentes!... não sei, não.
- Ó mãe quando é que o pai chega do trabalho?
- Lá estás tu a interromper! Não sei Pimpolha. Foi levar um lindo bebé a um casal de humanos lá para cima, para os lados de Guimarães e concerteza vai chegar muito tarde.
- Sabe vizinha, encontrei o seu marido precisamente quando ele ía a sair. Coitado, estava a queixar-se que o bebé era muito pesado, um rapagão bochechudo mas tão bonito e tão cutchi-cutchi-cutchi!
- Já disse várias vezes ao meu Manéli, “Manéli tens de te reformar, já não tens saúde para isto homem”. Mas ele responde que não há nada que o faça mais feliz do que ver a felicidade estampada na cara de cada casal a que ele entrega um bebé. E quando são dois? Ele diz que até chora de comoção! Ái, ái, é assim o meu Manéli, um sentimentalão! Tem um coração do tamanho do mundo!
- Mãe, estive a falar com os vizinhos novos.
- O quê Pimpolha?!! O que é que já te disse sobre falares com estranhos? Nunca faças isso, podem enganar-te com conversas matreiras e fazer-te mal. Não quero dizer que todos os estranhos sejam maus, mas é preciso ter cuidado. Repito, és muito pequenina e podes ser facilmente enganada.
- Mãe, não te preocupes, estava lá também o Sr. Nónio. Aliás, foi ele que conversou com os vizinhos novos, eu fiquei a ouvir.
- Ah, assim fico mais descansada.
- Sabes, eles não entregam bebés como nós.
- Não?!!!
- Não.
- Eu bem digo vizinha, são mesmo estranhos!
- Não são, não! Mãe, D. Micas, as garças são um bocadinho diferentes de nós mas são muito, muito simpáticas. Elas contaram que andam de condominio em condominio a ver se existe alguém que precise de ajuda, como por exemplo, uma cegonha que já não possa voar, e trazem-lhe peixinho para comer. E mais, recrutam outras aves para ajudar também. Assim, quando se vão embora, fica alguém a tomar conta dessa cegonha.
- Ahhh, e eu que pensava que mais ninguém tinha um coração tão grande como o meu Manéli!
- Pois é mãe, pois é D. Micas, não devemos recear e julgar quem é diferente de nós, de outro tamanho, de outra cor… Primeiro devemos saber como realmente são!
- E não querem ver que tenho uma filhota que sabe dar bons conselhos! Tenho muito orgulho de ti, minha Pimpolha!
- Isso quer dizer que hoje posso repetir a sobremesa? Posso, posso?
- Não abuses!… hehehe



Queres saber mais sobre as aves que participam nesta estória? Então vai ver:
Cegonha-branca:
http://www.avesdeportugal.info/ciccic.html

Garça-real:
http://www.avesdeportugal.info/ardcin.html



Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Ostraceiro da Paixão


O ostraceiro da Paixão é um bicho vaidozito
pica por todos os cantos, pica, pica, com jeitito


Passa a vida no picanço sempre em volta dos pés dele
Pica aqui e pica ali, mas nunca se pica a ele


Tem pintinha de vaidoso, é bonito, ar de gingão
Papa ostras e peixinhos, o ostraceiro da Paixão


Entra mudo e sai calado, neste charco onde apareceu
Gosta do som do calado, às vezes enamorado, leva no bico o que deu


Vagueia por muitos mares, águas salgadas e rios
P'ra ele não há fronteiras, a vida são desafios


Tem tempos de solidão, tem momentos de alegria
Quando se fala de amor, o ostraceiro, ele até pia


Agora vejam-no bem, com esta peço perdão
Estava à espera destes versos, o ostraceiro da Paixão


Texto de Rui J. Santos (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 12 de setembro de 2009

A árvore que vivia triste



No bosque encantado existia uma árvore que vivia muito triste, porque dos seus galhos nunca uma flor brotou. Só folhas!

Uma abelhinha aproximou-se dela cantando:

- Zumm... zumm... zumm... Que árvore feia! Só tem folhas! E as flores, onde estão?
Amiga Zézé, o que vamos fazer?

Aí a amiga que a acompanhava continuava calada e a observar. Eis, então, que afirmou:

- Aqui não fico, pois preciso levar um pouco de mel para a minha colmeia.

Vocês sabem o que é uma colmeia? É a casinha das abelhas. É ali que elas moram e fabricam o mel, que é um óptimo alimento.

As abelhinhas são muito trabalhadoras pois retiram o néctar das flores, depois levam-no para a colmeia e ali o depositam. Hoje, amanhã, depois... E vão formando o mel tão saboroso.

Digam-me lá, vocês já provaram um favo de mel? Hum! Como é gostoso!

Bem, voltemos à nossa história.

A abelhinha continuou a dizer:

- Como esta árvore não tem flores, vou-me embora.


Chegou em seguida uma linda borboleta e, voando em torno da árvore, comentou:


- Como é triste esta árvore! Não tem nenhuma flor! As flores é que alegram a vida.


Vocês sabiam que as borboletas põem ovinhos nas folhas das plantas, e desses ovinhos nascem uma porção de lagartas que um dia se transformam de novo em lindas borboletas?
Como é maravilhosa a natureza!


Vieram também alguns passarinhos, mas não gostaram de fazer os seus ninhos na árvore sem flores, por isso também eles não ficaram lá.

A noite já começava a espreitar, quando de repente um menino se aproximou da árvore e disse:

- Estou tão cansado que vou deitar-me debaixo dessa árvore.

Deitou-se e dormiu. A árvore, no seu silêncio, pensou: "Como ele está cansado... Deve estar sentindo frio! Vou derrubar as minhas folhas sobre ele, para lhe servirem de agasalho, assim ele ficará quentinho".

Quando amanheceu, o menino acordou e disse admirado:

- Tantas folhas. Dormi tão bem! Como esta árvore é boa e generosa! Agasalhou-me com as suas folhas! Vou agradecer-lhe.

Pensou, pensou e pensou... Lembrou-se, através dos seus poderes mágicos, de a transformar na árvore mais bela e alegre do bosque.

Virou-se para a árvore e disse- lhe:

- De hoje em diante, dos teus galhos brotarão flores multicores, para que todos se sintam felizes e tu também passes a sentir-te bem contigo própria.

E a magia aconteceu. A árvore ficou linda, vestida com muitas cores.



Voltaram as abelhinhas, a borboleta e os passarinhos, e todos disseram:

- Como estás bonita, perfumada e alegre! És a árvore mais linda que existe! Viremos sempre visitar-te!

E como todos estavam contentes, cantaram junto das formosas flores.

Texto de Teresa Escoval (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Pernilongo distraído


- Ei, Longos! Sempre vens ou não?
- Pá, ‘tou feito! Não me aborreças agora!
- Mas, já tínhamos combinado há bué, meu! Hoje é a final. Super importante!
- Importante? Nada é mais importante do que isto! Só te digo que ‘tou feito à posta!
- À posta? ‘Tás bem?
- Que é que achas? Estou feito, já te disse. Olha, Pernas, diz ao pessoal que hoje não vai dar. Quero lá saber da final! Rico final vou eu ter!
- Queres dizer-me o que se está a passar? Quem te vir diz que és tonto, Longos. Já está lá tudo à espera, só faltas tu. Daqui a nada, ficas com as pernas brancas. Uhuh! Que cena marada! O Longos de perna branca. Vais levar um baile!
Ah! É verdade, a tua mãe queria falar contigo. Passei lá para te ir buscar e ela disse-me…
- Ai! Não quero saber! Não quero saber! Vou levar é das poucas, isso é que vou. Deixa-me, Pernas. Se me livro desta juro… juro… sei lá, que nunca mais venho nadar com aquela cena.
- Mas que cena? Cenas ‘tás é a fazer tu, aqui, ora vai abaixo, ora vem acima, ora baixa o traseiro, ora tira. Nem a nadar estás, qual é? Olha, a tua mãe mandou…
- Qual é? Não me fales na minha mãe que me passo! Já viste um jovem pernilongo à beira dum ataque de nervos?
- Olha-me este! E se me dissesses o que se passa, hã? Mas deixa-me dizer-te o que a tua mãe…
- Esquece a tua tia, Pernas! Nunca a viste virada, pois não?
- Longos, já nos conhecemos desde sempre, bolas! Diz lá que eu ajudo-te. Não há-de ser nada do outro mundo…
- Vai ser, se eu voltar para casa e disser à minha mãe o que aconteceu!
- A tia Longuita? Ái que já não estou a perceber nada! Ela nunca te bateu, meu!
- Mas desta, levo por todas as que fiz e que não fiz, acredita!
- Bom! Diz lá o que fizeste. Sou teu amigo ou não sou? Se quiseres até digo à tua mãe que fui eu. A mim ela não me diz nada, ou antes, disse. Pediu para…
- Disse que tu és super organizado, não foi? Ela ‘tá sempre a dizer-me: “Longuitos, Longuitos! És tão distraído, filho! Podias ser como o Pernitas. Mas não! Deixas tudo em qualquer lado, nunca sabes onde puseste as coisas. Depois andas aflito. E patati e patatá…
- Isso é o que ela te diz! A minha mãe está sempre a dizer-me que eu leio até altas horas! Que estrago a vista!...
- Eh!Eh! Agora até me fizeste rir, e eu não me posso rir, ouviste? E não me fales em vista! Olha, é assim, e, se deres ao bico, eu ‘tou feito, mas tu, Pernas, começa já a dar de patas porque digo ao pessoal que não adormeces sem ser com a luz acesa.
- Pá, essa não, meu! ’Tás-me a gozar? Prometeste que não abrias nunca o bico, ‘Gus!
Vais dizer-me ou não? Vamos ficar aqui o dia todo? Já ‘tou com as pernas a doer.
- A minha mãe diz-me sempre para eu não usar as lentes quando vou nadar, né? E já viste quantas me comprou este ano. Até me cortou a mesada.
- Pois cortou e quem se tem que chegar à frente sou sempre eu.
- Então, acordei cedo e pensei em vir nadar e pus as lentes.
Estava o nosso Longos a contar e não reparava, aflito que estava, que o primo já se ria como um perdido.
- Ainda gozas? Pá, perdi as lentes! Eu ‘tou feito! Pára de te rir e ajuda-me a procurar.
- Longos! Queres ouvir-me?
- Quero que me ajudes! Sem as lentes é que eu não saio daqui!
- Tu não perdeste nada, meu!
- Não perdi o quê? Estou-te a dizer que não consigo ver direito, já nem sei se é do nervoso, se é de quê!
- Longoooooos!
O Longos olhou e viu que o primo tinha uma caixinha na asa!
- Pernas! Também vais usar lentes? Queres ver que é de família?
- Longos! São as tuas lentes, meu!
- Bolas! Viste-me aqui aflito! Já me imaginava sem mesada para a vida inteira!
Que alívio! Desta já me safei! Olha, que é que queria a minha mãe dizer-me?
- A tua mãe pediu que te trouxesse as lentes, trengo!
- Podias ter-me dito logo!
O Pernas pousou a asa no ombro do primo e disse a rir:
- És mesmo um Longas, ó Longos! ‘Bora lá que o resto do grupo já deve ‘tar é seco de esperar.

Texto de Cristina Miranda - Blogue: Lugarejo de Palavras (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Quem mexeu no meu pão?

Quem mexeu no meu pão?!!!... Esta gente sem vergonha mete o bico em todo o lado menos nos seus próprios pratos. Mal se olha para o lado lá estão eles a gamar ou a tentar... são piores que aquela gente que passa o tempo todo a debicar na vida alheia. Arre que são piores que as comadres!!! A essas ainda podemos virar as costas e ignorar. É o mal de viver num bairro antigo e dito típico de Lisboa... quadrilheiras e ladrões de conveniência são às carradas ... é mais fácil tropeçar nesses do que numa pedra da calçada ... até porque afinal de contas tenho asas.

Deixa cá pegar no meu pão e levá-lo para lugar seguro. Estes bicharocos de quatro patas, nariz afiado e muito pêlo não são de confiança. Bem que a LisSecuritum dava aqui jeito ... huum ... boa ideia!!! Vou chamá-los, pois aqui terão muito trabalho para fazer e até estou a fazer um favor a estes humanos, que nem se apercebem dos perigos que correm ao ter estes roedores por perto. É isso mesmo... vou ligar-lhes!

triim triim

- LisSecuritum bom dia!

- Muito bom dia senhores. Gostaria de vos informar que o Bairro Alto tem imensos roedores e que estão sempre a tentar roubar-nos a comida oferecida pelos humanos. São uma praga total.

- Muito bem! É uma parte da cidade que já tinhamos intenção de inspeccionar, mas de facto ainda não temos pessoal suficiente para cobrir todas as áreas.

- Pois acredito que tenham mesmo muito trabalho a tentar controlar roedores e as malucas das pombas, mas essas não se chegam quando estou por lá.

- Estou a ver que pelo menos é temido pelas pombas, isso é muito bom e seria útil para nós termos um vigilante assim. Será que gostaria de integrar o nosso quadro de vigias?

- É uma proposta tentadoramente interessante, mas tenho o meu emprego.

- Bem, apenas precisaria de nos informar sobre as ocorrências que vai registando, no dia-a-dia, junto dos moradores do Bairro. Será atribuída uma pequena recompensa por cada alerta válido.

- Muito bem, aceito. Podem contar comigo!

- Agradecemos a sua colaboração e vamos enviar uma equipa imediatamente. Diga-nos onde aconteceu o incidente.

- A meio da linha do Elevador da Bica.

- Percebido e registado. Mais uma vez agradecemos a sua colaboração e bem vindo aos quadros da LisSecuritum! Apenas solicitamos que passe pela nossa sede de forma a formalizar o contrato.

- Concerteza! Hoje à tarde passarei por aí.

- Então até logo!

- Até logo!

Bem, deixa-me cá pirar e levar a paparoca para o telhado. Agora que fiz a minha boa acção do dia vou refastelar-me com um almoço com vista para o Tejo!!

Texto de Sandra Marques - Blogues: Nas Asas dos Sonhos e Chocolate PB (Todos os direitos de autor reservados)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Uma família delicada


Foi quando os ouvi no meu jardim...

Hoop! Hoop! Hoop! Fazia Dom Poupa Delicado, chamando Dona Poupa Delicadeza, já tendo preparado a refeição dos dois, bicando por todo o lado em diferentes direcções, procurando minhocas que ele bem sabia ser o prato preferido dela.

Repetiu o seu chamamento, Hoop! Hoop! Hoop! Como tardava Dona Poupa Delicadeza, pensava impaciente Dom Poupa Delicado, que ensaiou um voo mostrando as suas belas asas todas riscadas de preto e branco, tal como o topo da poupa.

Espreita da cavidade de uma árvore Dona Poupa Delicadeza que chocava os seus ovos de cor azul esverdeada, que pareciam verdadeiros ovos da Páscoa, perguntando ao seu companheiro se não tinha visto o coelho.

- O coelho? Qual coelho? pergunta Dom Poupa Delicado.

- O coelho que roubou os nossos ovos no ano passado, respondeu triste Dona Poupa Delicadeza.

- Ah! O coelho da Páscoa!! Já foi embora! Mal o vi, chamei todos os pássaros e também o cão dono do jardim. O coelho mal viu o cão desapareceu correndo. Não tenhas medo este ano ninguém roubará os nossos ovos.

Hoop! Hoop! Hoop! Canta contente Dona Poupa Delicadeza e corre junto com Dom Poupa Delicado a comer as minhocas por ele preparadas.

Dias depois, dos belos ovos que pareciam pintados, nasceram as Poupinhas Delicadas.

Existia no meu jardim, mais uma família feliz.

Texto de Claras Manhãs (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ter um amigo é tão bom!


- Pssssiut!!!
- ………
- Olá! Estava lá em cima no Blogue da Helena e apeteceu-me vir à janela.
- Blogue? Helena? Ái, desculpa, não estou a ver a que te referes. És nova, por aqui?
- Sou. Comecei há dias a colaborar no espaço da Helena. É fotógrafa.
- Ah! Uma agência de modelos. É isso? Então és modelo.
Lilly desatou a rir. Achou um piadão que aquele rapaz tão bonito achasse que ela era modelo.
- Não. Sou a Lilly. Gosto imenso de escrever e fiquei deliciada com o projecto da Helena. São contos que são lidos por jovens dos 7 aos 77. Respondi ao anúncio, ela gostou e cá estou eu. Ainda não conheço muita gente por aqui e como te vi assim, meio tristonho, perdi a vergonha e vim falar um bocadinho contigo.
Foi a vez de o nosso Azulito rir. Miúda engraçada e que simpática.
- Espera lá, agora que estás a falar, há dias andava por aqui uma rapariga com uma mala ao ombro. Perguntou-me se eu não me importava que me tirasse umas fotografias.
- Só podes ter deixado! Tens umas penas tão bonitas! E essa cor!
- Não me importei. Hesitei um bocadito. Sabes? Eu sou um pavão e nem imaginas o que corre de boatos por aí!
- Então? Boatos?
- Que sou um grande vaidoso, que só olho para mim, que ando atrás das miúdas todas aqui do jardim e não é verdade.
- Mas a Helena é uma ternura de pessoa, uma paixão! Com ela podes falar de tudo.
- Achas mesmo? Não falo assim com as pessoas sobre isto. Ela deveria pensar que eu me estava a armar, sei lá!
- Estás a falar comigo, não estás?
- Mas não és pessoa e já vi que és super simpática.
Lilly adorou e deu um salto e foi pôr-se mais pertinho daquele Pavão tão bonito.
- Pronto! Sou pequenota. Dali do chão não te conseguia ver bem. Mas, diz-me, não gostaste da Helena? Se dizes que sou simpática espera para falar com ela e vais ver! Ela está sempre atenta e claro que te ajudaria a acabar com esse diz que disse.
- Claro que gostei! Ela tratou-me tão bem! Foi-me fotografando. Disse até para me por à vontade e que eu não precisava de posar.
As pessoas que vêm aqui ao jardim adoram ver-me, mas, eu sei que depois me chamam vaidoso e outros nomes que nem te digo. Não faço a mínima ideia porquê mas até me compararam com um tal D. Juan, só que me chamaram D. Pavan.
- És mesmo engraçado! – e Lilly ria, divertidíssima – É porque tu és muito bonito, entendes?
- Tu também. Já te chamaram nomes assim?
- Já! Dizem que sou uma magrela, que pareço uma vara de pauzitos mas eu não ligo nenhuma nem dou ouvidos e tu tens é que fazer exactamente o mesmo.
Importa o que se é por dentro, e já deu para perceber porque é que a Helena te pediu para te fotografar.
- Achas mesmo? Não estás a dizer isso só por dizer?
- Não acho, Azulinho. Tenho a certeza!
- Então porquê? – Chamava-lhe Azulinho. Gostou.
- Eu disse-te que estava lá em cima no Blogue da Lena, não disse?
- Sim, e?...
- Não te disse é que já vi as tuas fotos lá, que ela saiu mas deixou o computador ligado.
- Fiquei na mesma… diz tudo duma vez, ó piolha!
Lilly deu mais um salto e ficou no dorso do amigo que sabia ter encontrado ali.
- Vou contar-te um segredo. A Helena já mandou as tuas fotos para uma amiga para que ela escrevesse uma história sobre ti. Ela sabia que andavas super triste por pensares que gostavam de ti só por seres bonito por fora e como te sabe assim, tão bonito e terno e simpático, achou que te podia ajudar. Vais ver, Amigo. Daqui a dias vais receber muitas visitas e vão olhar-te assim, como ela te olhou, e, nunca mais te vão chamar D. Pavan.
O pavão ficou calado sem saber bem o que dizer. Olharam-se e desataram a rir.
- Há muito que não encontrava um bichito como tu, Lilly. Tens que ir já para o Blogue?
- Não. Estou na minha hora de intervalo, porquê?
- Porque me disseste que começaste a trabalhar há pouco tempo aqui e faço questão de te mostrar este espaço. Afinal, hoje ganhei uma Amiga e há que celebrar.
- Eia! ‘Bora lá que te acompanho. Mas vai com calma que tenho que ir dando uns saltos.
- Nem penses, Minorca! - E piscou-lhe o olho a sorrir – Faço questão de te levar assim para poderes ver tudo cá do alto como deve ser. Vou mostrar-te todos os cantinhos à casa.

Lá em cima, pela janela do Blogue, a Helena sorria.
Que maravilha ver como os visitantes olhavam com tanta ternura um pavão todo vaidoso a passear, com uma Louva a Deus no dorso, toda catita, pelo jardim.
Não resistiu! Foi buscar a máquina para ficar com mais um belo momento.

Texto de Cristina Miranda - Blogue: Lugarejo de Palavras (Todos os direitos de autor reservados)

domingo, 11 de janeiro de 2009

LisSecuritum



Oh, desculpem esta indelicadeza... o meu bocejo representa uma longa noite a guardar a bela cidade de Lisboa... há muitos invasores furtivos por aí. De noite rondam os ratos e ratazanas de esgoto que não param de esburacar as ruas da cidade, de dia são as malucas das pombas que andam sempre a bombardear as pessoas ... isto não é fácil!!

Acho que vou ter de iníciar um processo de recrutamento e formar mais gaivotas... acho que vou recorrer ao microcrédito e abrir uma empresa de segurança. Até já sei o nome... LisSecuritum!!!! Aí é que vai ser, eheheh, não haverá roedor e bombardeiro que resista à minha força de intervenção!
A minha empresa vai ser reconhecida nacionalmente e os serviços vão tornar-se indispensáveis para o bem estar da população... mas, agora vou mergulhar em busca de um belo pequeno-almoço e lavar a minha deslumbrante plumagem.
Olhem para o céu... eu andarei por lá durante o dia!

Texto de Sandra Marques - Blogues: Nas Asas dos Sonhos e Chocolate PB (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Bailado da Infância



Às vezes eu voo.
Solto as asas,
Construo fadas
no cantar dos pirilampos.
Sonho, sonho, que sou flor
De trigo, sol
ou pó de amor.
e vou crescer
entardecer
de laranjas, luz e mel
Quero, quero a montanha,
Que disseste.
e adormeço…
entonteço…
num bailado
demorado
de infância, sol e pele…

Texto de Elisabete Simões (Todos os direitos de autor reservados)


2009 está quase, quase a bater à porta.
Desejo a todos que 2009 seja um ano inesquecível por conta das inúmeras alegrias e bons acontecimentos que irão vivenciar.


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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Santo



Naquele lago real, onde a noite era feita de um brilho especial, que só a luz das estrelas guias conseguia suster, todos os seus habitantes viviam em perfeita harmonia.

Peixes dourados davam beijos repenicados aos peixes vermelhos. Os cisnes dançavam dia e noite para que todos pudessem admirar a sua arte, os passarinhos que procuravam comida na água calma debitavam notas de melodiosas canções.

O senhor ganso real nomeado há mais de duas décadas como rei, tudo fazia para que todos fossem felizes.

Como não tinha família preocupava-se com todos de igual forma!

Com a chegada do Natal ao Reino de Pitipum o senhor ganso real Plim-Plim andava numa roda-viva, para que nada corresse mal em casa dos seus amigos.

E tudo fazia para que a festa fosse cheia de alegria e presentes... mas enquanto viajava pelas águas mornas descobriu a um canto um lindo pato branco como a neve, mas com um olhar muito triste.

- Que tens tu meu patinho? Nunca te vi aqui...

- Chamam-me "O Santo" e vim aqui ter através das águas revoltas do rio grande...

- E porque caem lágrimas dos teus olhos?

- Estou perdido e sinto-me muito só... está a chegar o Natal e eu não tenho ninguém...

Plim-Plim sentiu o coração muito apertadinho ao ouvir a voz triste daquele patinho e disse-lhe que podia passar o Natal com eles no reino de Pitipum, mas que se ele não se importasse gostaria de ouvir a sua história.

O Santo contou que viveu sempre num reino muito distante onde as águas eram escuras como o carvão e onde o rei era muito mau para todos. Entrando em guerras com todos os reinos vizinhos. E foi numa dessas guerras que os seus pais morreram, como era muito pequenino meteram-no num orfanato para patos pequeninos, onde ele viveu durante algum tempo e tinha sido aí que lhe tinham começado a chamar o Santo.

- E porquê?

… quis saber o rei

- Acho que era por ajudar todos os outros patinhos, quando tinham fome eu dava-lhes as minhas migalhas e quando tinham frio cobria-os com as minhas penas brancas... sempre que alguém precisava de alguma coisa vinha ter comigo.

- Então és um bom patinho.

- Não... apenas não gosto de ver ninguém triste.

- Mas tu estás triste...

- Porque me sinto muito sozinho desde que o nosso rei mandou fechar o orfanato e, por isso, todos os patinhos ficaram perdidos nas ruas, por essa razão fugi e meti-me no rio grande à procura de outros sítios mais felizes.

- … e chegaste até aqui.

- Sim, hoje de manhã.

- E que estavas a fazer junto ao velho ganso Gaspar?

- Encontrei-o junto dos nenúfares a falar sozinho, cheguei-me perto dele e vi que estava tão só como eu, por isso estava a cantar-lhe uma canção de Natal que a minha mãe me cantava.

O velho ganso aproximou-se... cumprimentou o rei e disse-lhe que tinha encontrado um amigo muito especial.

Feliz o rei pensou que tinha encontrado uma forma de ajudar o pequeno pato.

- Olha lá Santo já ouviste falar no Pai Natal?

- Sim, claro! Quando os meus pais eram vivos ele visitava sempre a nossa casa, mas acho que nunca conseguiu encontrar o caminho do orfanato, porque nunca apareceu por lá!

- Olha sabes que o nosso Pai Natal tem andado muito ocupado... há imensos bebés no nosso reino e ele sozinho não vai conseguir chegar a todas as casas. Que achas de seres o seu ajudante este ano?

- A sério? Está a falar a sério?... e ele não se importa? É que eu não sei fazer nada...

- Sabes sim, sabes dar amor e alegria e isso é o mais importante não só no Natal, mas todos os dias.

E foram os dois até casa do Pai Natal, onde o Santo, de olhos arregalados viu a quantidade de presentes que ali se embrulhava para serem distribuídos na noite de Natal.

Com um lágrima de alegria a rolar até ao seu bico laranja, o Santo começou logo a ajudar o Pai Natal... assim, na noite mágica de 24 de Dezembro os dois sairam e muito contentes foram distribuir as prendas por todos os habitantes de Pitipum.

Ao chegar à última casa o Santo descobriu que lhe faltava um presente. Era o pobre ganso Gaspar. Sem pensar duas vezes tirou algumas das suas penas e ali mesmo fez-lhe uma manta para o aquecer naquele frio Inverno... agradecido o ganso convidou-o para jantar, mas ele disse:

- Prometi ao Pai Natal que jantava com ele esta noite... senão ficará sozinho, queres vir comigo, assim nenhum de nós estará triste ou só!

Rindo o ganso Gaspar sentou-se no skate aquático do Santo e partiram até casa do Pai Natal, onde tiveram a mais bela noite de Natal de sempre.


Texto de Carla Marques - Blogue: Palavras em desalinho (Todos os direitos de autor reservados)


Através deste lindo conto de Natal, escrito pela Carla Marques, aproveito a deixa para desejar a todos os que têm incentivado este projecto , quer através da partilha de criatividade, quer pelos simpáticos comentários que aqui vão deixando, um muito Feliz Natal com muitos sonhos, alegria, paz e amor no coração.

Natal-17671

domingo, 14 de dezembro de 2008

O lago azul e os gansos



Eu sou o Lago Azul, mas hoje porque há algum vento, que enruga as minhas águas e o sol me empresta a sua cor, vesti-me de verde e dourado.

Os gansos gostam de vir deslizar por cima de mim e aqui há muitos gansos.
Mas hoje só vos conto a história destes três que estão a ver:
A gansa mãe Mãezita, Quita sua filha e o ganso Reguila.
Mãezita tomava conta de Quita e, de Reguila seu sobrinho, que brincavam, mergulhando à vez nas minhas águas claras, procurando no fundo, bem visível, o sol que brilhava lá em cima no céu e que parecia que entrava por mim, escondendo-se no fundo.
O ganso Reguila que era mais velho do que Quita, convencera-a, que se mergulhasse bem fundo conseguia apanhar o sol.
O sol, o sol que estava tão alto, lá em cima e que Quita procurava no fundo do lago, sempre acompanhada pelas gargalhadas de Reguila que aqui e ali, também mergulhava, para a não deixar desistir.
Quita, não se importava, porque tinha a certeza de ter visto, bem lá no fundo, o sol tão brilhante.
Já cansada, mas sem querer desistir, resolveu fazer um esforço imenso e nadou, nadou com força até ao fundo do lago, porque queria ir buscar o seu sonho, trazer o sol e brincar com ele.
Como demorou mais tempo a vir à tona, tinha ido tão fundo, Mãezita aflita, ralhou com Reguila por ter convencido Quita a procurar o sol no fundo das minhas transparentes águas e, antes que mãezita o castigasse, Reguila resolveu afastar-se, também preocupado com Quita.
Mas eis que aparece Quita, contente, porque finalmente conseguira apanhar o sol.
Trazia no bico, uma bola amarela, brilhante, que algum menino deixara cair dentro das minhas águas.

Texto de Claras Manhãs (Todos os direitos de autor reservados)

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