Bem-vindos ao “Estórias de Bicharocos e Bicharada”, um blogue dos 7 aos 77 anos

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Rafeirão



Rafeirão era o último descendente de uma longa e distinta linhagem de rafeiros. Desde tempos imemoriais que a sua família tinha desempenhado papéis fundamentais na história da humanidade, tendo como exemplo mais saboroso o tetravô Ra Fei Lu, que rezam as crónicas terá servido o Imperador chinês Béu Béu (outras crónicas dizem que ele foi servido ao Imperador, mas não vamos explorar essa parte).


Tal herança dinástica angustiava Rafeirão, pois via todos os seus parentes com sucesso na vida, desde a manutenção da Lei e Ordem até à condução de invisuais pelos perigos das nossas ruas. Claro que, como em qualquer família, havia a ovelha negra, ou melhor, o rafeiro negro. Para desgosto de toda a família, o tio Snifador meteu-se na droga, após anos e anos a fiscalizar as malas que desembarcavam no Aeroporto da Portela, tendo posteriormente sido metido numa clínica de reabilitação, onde ainda hoje se encontrava.


Mas Rafeirão não se podia comparar com apenas um exemplo mau, pois toda uma família de benfeitores clamava pelo seu esforço em prol da sociedade. E as coisas não estavam famosas.
A única acção digna de registo que tinha praticado até então foi ajudar uma velhinha a atravessar a rua, ainda por cima para o local errado, o que lhe custou umas bengaladas no lombo. O desespero começava a tomar conta de si, pois por muito que rebuscasse nos seus talentos, não via nada de jeito, à excepção de uma dentição poderosa.

O seu tempo começava a escassear, pelo que tinha de descobrir rapidamente uma forma de ascender ao estrelato.
E foi então que uma ideia o atingiu violentamente. Quer dizer, não foi bem uma ideia, mas uma bola de futebol. Era isso, ia tornar-se um jogador profissional, daqueles capazes de levantar estádios inteiros com as suas habilidades! Só havia um pequeno problema: não tinha jeito nenhum para a coisa. Ele bem corria atrás da bola, mas a tentação era abocanhá-la, ao invés de a pontapear para as redes. Passou dias inteiros a praticar, mas a única coisa que conseguiu foi rebentar 38 bolas e arranjar uma úlcera gástrica ao treinador.

Colocada de parte a carreira futebolística, deram-lhe uma outra função, também ela ligada ao mundo da bola: morder o árbitro sempre que este cometesse um erro. Reformou-se passados cinco jogos, já com os dentes gastos, tendo de passar o resto da vida a comer sopa por uma palhinha. Pois é, o mundo da bola não é para qualquer rafeiro...

Texto de Jorge Pereira - Blogue: Rafeiro Perfumado (Todos os direitos de autor reservados)


... e humor!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Espírito de Natal

- Olá Zélito!... Oooops, que biquinho é esse? Que ar tão pensativo tens hoje.
- Olá.
…………
- Zélito à terra! Olááááá!
- Hum? Desculpa Mina, estava aqui perdido nos meus pensamentos.
- Pois, nota-se! Não me ligas nenhuma… Que se passa?
- É que… Sabes, andava como de costume entre as cadeiras daquele café ali à frente, à procura de migalhas e acabei por ouvir uma conversa entre uns humanos que me deixou muito triste.
- Triste?! Porquê?
- Estavam a falar sobre a época que muitos dos humanos agora festejam, chama-se Natal. Não percebi muito bem do que se trata, parece que há muitos, muitos anos nasceu um menino especial num sítio muito longe.
- E como se chamava esse menino?
- O menino chamava-se Jesus e nasceu em Belém. Como já disse, esse menino era muito especial, dizem que era filho de Deus e, tal como Deus, era muito bondoso e tinha como missão espalhar a boa vontade, a bondade, o carinho, a compaixão, a amizade e o Amor entre os homens, que estavam muito carentes destes sentimentos.
- Que lindo!!! E conseguiu?
- Parece que não… Estavam esses humanos precisamente a falar sobre isso. Nesta época do Natal celebra-se o nascimento desse menino mas hoje em dia os homens parecem ter esquecido a mensagem de Jesus e só se preocupam com os presentes.
- Presentes? E o que é isso?
- Também não percebi lá muito bem. Parece que compram coisas para dar uns aos outros.
- Coisas? Que coisas? Eu cá só me interesso por migalhinhas, umas sementes, enfim, paparoca! Hehehe
- Ah, mas os homens precisam de muito, mas mesmo muito mais coisas para se sentirem felizes. Não se contentam só em ter a barriguinha cheia como nós.
- Coitados!... Assim devem ter uma vida complicada.
- Complicadíssima!
- E ficaste triste por causa disso, foi?
- Não só por isso. Os tais humanos disseram ainda que há muitos homens, mulheres e crianças que nem sequer conseguem ter a barriguinha cheia, passam muita fome.
- Mas isso é simplesmente horrível!! E os outros deixam?!!??!! Tu trazes-me sempre umas migalhas quando não consigo desenvencilhar-me sozinha e o mesmo faço eu por ti.
- Eles disseram que poucos homens fazem isso uns pelos outros.
- Que triste!!! Ainda bem que nasci pardal! Depois do que me contaste, não gostava nada de ser humana.
- Pois, agora percebes porque estou assim?
- Claro!
………
- Zélito, tive uma ideia!
- Sim? Conta.
- Se não fazem eles, fazemos nós. Falamos com os outros pardais e tentamos recolher entre todos a maior quantidade possível de migalhinhas para esses humanos que passam fome.
- Boa Mina! Grande, grande ideia! Podemos falar também com os pombos, de certeza que eles vão querer ajudar. Ouvi os humanos dizerem ainda que uma das zonas do planeta onde há mais fome é África. Depois temos de fazer chegar lá as migalhas.
- Esse é um pequeno-grande detalhe que não sei como vamos resolver. África não fica do outro lado do mar? Nós não conseguimos voar até tão longe carregados com migalhas…
- Tens razão. Oh, assim nem vale a pena começar…
- Calma, vamos pensar bem. Havemos de encontrar uma solução.
- Só uma ave grande consegue fazer a travessia carregada de migalhas. Lembraste de alguém a quem possamos pedir ajuda?
- Ave grande? Tenho visto por aí uns grifos a passar. Pois é! Nesta altura eles estão em migração para… África!
- Boa!
- … e quem vai falar com eles? Eu tenho medo, são tããããããão grandes!
- São, sim. Mas não nos fazem mal. Eu vou lá falar com eles.
………
- Boa tarde Sr. Fulvus, posso dar-lhe uma palavrinha?
- Olá, quem és tu pirralho?
- Sou o Zélito e preciso de falar consigo sobre um assunto muito importante.
- Ah, sim?
- Sim! Eu e a minha amiga Mina queremos levar até África o verdadeiro espírito do Natal. Ou seja, levar até aos humanos que passam fome em África alguma comidinha e proporcionar-lhes assim algum conforto.
- Isso é realmente um assunto muito importante e interessante. Continua, sou todos ouvidos.
- Vamos, juntamente com os outros pardais e os nossos amigos pombos, recolher migalhas, milho e centeio. Como somos pequeninos e não conseguimos voar com muito peso, precisamos que alguém nos ajude e leve o que conseguirmos recolher. Será que nos pode ajudar assim como os outros grifos seus amigos?
- Claro que sim! Isso nem se pergunta. Tenho a certeza que os meus amigos vão aderir logo a esta ideia e empenhar-se nesta missão tão nobre.
- Que bom! Vamos já começar, que diz?
- O que digo? Mãos à obra meu rapaz! Nunca é cedo demais para partilhar o verdadeiro espírito de Natal.

Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

Queres saber mais sobre as aves que participam nesta estória? Então vai ver:
Pardal: http://www.avesdeportugal.info/pasdom.html
Pombo: http://www.avesdeportugal.info/colpal.html
Grifo: http://www.avesdeportugal.info/gypful.html
E sobre o Natal: http://pt.wikipedia.org/wiki/Natal


* * * A todos os visitantes e apoiantes deste projecto deixo aqui
os meus sinceros votos de que o espírito de Natal brilhe
nos vossos lares e corações.
Um muito Feliz Natal! * * *


sábado, 28 de novembro de 2009

Condomínio Ciconiforme


- Ó mãe, mãããe!...... Mãe!!!....... Mãããããããããeeee!
- Pimpolha, filha, não grites! Não vês que estou a conversar com a vizinha?
- Mas mãe…
- Nem mãe, nem meio mãe. Acalma-te que estou a ter uma conversa muito importante com a D. Micas. Continue vizinha, estava a dizer que aqueles vizinhos novos são um bocado estranhos… Então… e porquê?
- Digo-lhe vizinha, são mesmo estranhos. Para já, embora tenham algumas semelhanças connosco… Bom, têm duas asas e duas patas, não é? Mas… são de outra cor, cinzentos… são mais baixinhos… Não sei, não me agradam… são diferentes.
- Hum… realmente, quando aqui chegaram reparei que têm uma forma diferente de voar da nossa, retraiem o pescoço e batem as asas lenta e pesadamente. Ao longe até me assustaram, cheguei a pensar que seriam águias e temi pelos nossos pequenotes.
- Sabe, é nestas alturas que fico contente por viver num condominio como o nosso, afinal em cada ramo temos um vizinho, a proximidade faz-me sentir mais segura. Mas agora com aqueles vizinhos estranhos… diferentes!... não sei, não.
- Ó mãe quando é que o pai chega do trabalho?
- Lá estás tu a interromper! Não sei Pimpolha. Foi levar um lindo bebé a um casal de humanos lá para cima, para os lados de Guimarães e concerteza vai chegar muito tarde.
- Sabe vizinha, encontrei o seu marido precisamente quando ele ía a sair. Coitado, estava a queixar-se que o bebé era muito pesado, um rapagão bochechudo mas tão bonito e tão cutchi-cutchi-cutchi!
- Já disse várias vezes ao meu Manéli, “Manéli tens de te reformar, já não tens saúde para isto homem”. Mas ele responde que não há nada que o faça mais feliz do que ver a felicidade estampada na cara de cada casal a que ele entrega um bebé. E quando são dois? Ele diz que até chora de comoção! Ái, ái, é assim o meu Manéli, um sentimentalão! Tem um coração do tamanho do mundo!
- Mãe, estive a falar com os vizinhos novos.
- O quê Pimpolha?!! O que é que já te disse sobre falares com estranhos? Nunca faças isso, podem enganar-te com conversas matreiras e fazer-te mal. Não quero dizer que todos os estranhos sejam maus, mas é preciso ter cuidado. Repito, és muito pequenina e podes ser facilmente enganada.
- Mãe, não te preocupes, estava lá também o Sr. Nónio. Aliás, foi ele que conversou com os vizinhos novos, eu fiquei a ouvir.
- Ah, assim fico mais descansada.
- Sabes, eles não entregam bebés como nós.
- Não?!!!
- Não.
- Eu bem digo vizinha, são mesmo estranhos!
- Não são, não! Mãe, D. Micas, as garças são um bocadinho diferentes de nós mas são muito, muito simpáticas. Elas contaram que andam de condominio em condominio a ver se existe alguém que precise de ajuda, como por exemplo, uma cegonha que já não possa voar, e trazem-lhe peixinho para comer. E mais, recrutam outras aves para ajudar também. Assim, quando se vão embora, fica alguém a tomar conta dessa cegonha.
- Ahhh, e eu que pensava que mais ninguém tinha um coração tão grande como o meu Manéli!
- Pois é mãe, pois é D. Micas, não devemos recear e julgar quem é diferente de nós, de outro tamanho, de outra cor… Primeiro devemos saber como realmente são!
- E não querem ver que tenho uma filhota que sabe dar bons conselhos! Tenho muito orgulho de ti, minha Pimpolha!
- Isso quer dizer que hoje posso repetir a sobremesa? Posso, posso?
- Não abuses!… hehehe



Queres saber mais sobre as aves que participam nesta estória? Então vai ver:
Cegonha-branca:
http://www.avesdeportugal.info/ciccic.html

Garça-real:
http://www.avesdeportugal.info/ardcin.html



Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Ostraceiro da Paixão


O ostraceiro da Paixão é um bicho vaidozito
pica por todos os cantos, pica, pica, com jeitito


Passa a vida no picanço sempre em volta dos pés dele
Pica aqui e pica ali, mas nunca se pica a ele


Tem pintinha de vaidoso, é bonito, ar de gingão
Papa ostras e peixinhos, o ostraceiro da Paixão


Entra mudo e sai calado, neste charco onde apareceu
Gosta do som do calado, às vezes enamorado, leva no bico o que deu


Vagueia por muitos mares, águas salgadas e rios
P'ra ele não há fronteiras, a vida são desafios


Tem tempos de solidão, tem momentos de alegria
Quando se fala de amor, o ostraceiro, ele até pia


Agora vejam-no bem, com esta peço perdão
Estava à espera destes versos, o ostraceiro da Paixão


Texto de Rui J. Santos (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 24 de outubro de 2009

Pimpas e Pampi


- Meninos, meninos! Então, o que se passa? Porque estão novamente a brigar?

- Óh pai, foi o Pimpas que começou.

- Não fui, não. Foste tu! É sempre a mesma coisa… queixinhas!

- Vá lá, acalmem-se. Assim não pode ser, ultimamente andam sempre a embirrar e a implicar um com o outro e volta e meia a brigar. Isto assim não pode ser! Aliás, não vos percebo, tão amigos que vocês eram… Ái que saudades de quando vocês eram pequeninos, sempre tão amigos. Os outros gamos até comentavam “Que sorte que o senhor teve, dois filhotes lindos e tão amigos um do outro. Dá gosto ver!”.

Ainda me lembro tão bem daquela vez que tu, Pampi, perdeste as tuas bolotas de brincar. Foi num fim de Verão que as encontraste junto a uma árvore, esquecidas por um esquilo que andava a guardá-las para o Inverno. Andavam sempre os dois a brincar com elas mas era o Pampi quem tinha uma dedicação especial por elas.

Veio o Outono e as árvores começaram a deixar cair as suas folhas. Uma noite fez muito vento e quando acordámos de manhã estava tudo coberto de folhas secas. Tinhas deixado as tuas bolotas n
o chão, no sítio onde tinham andado a brincar com elas. Quando as foram procurar… estava tudo coberto de folhas e as bolotas escondidinhas debaixo delas. Ficaste desconsolado, Pampi. Tão triste!

E tu, Pimpas, com pena do teu irmão, começaste a procurar debaixo de cada folha. Que paciência! Os dois passaram horas à procura e, como a persistência dá bons frutos, lá foram encontradas pelo Pimpas.

Eu apreciava esta cena ternurenta, de vocês os dois tão unidos, escondido atrás de uma árvore.


- Lembro-me bem disso… Pampi, desculpa! Prometo que nunca mais volto a implicar contigo.

- Deixa lá, mano. Eu às vezes também faço de propósito para chamar a tua atenção… Agora só ligas aos teus novos amigos…

- Tenho uma ideia, vamos ter com os meus amigos e só brinco com eles se te deixarem entrar na brincadeira também. Vamos?

- Vamos! Podemos pai?

- Claro, vão lá divertir-se. Mas já sabem, estejam em casa a horas do jantar.

Texto de Helena Paixão (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 12 de setembro de 2009

A árvore que vivia triste



No bosque encantado existia uma árvore que vivia muito triste, porque dos seus galhos nunca uma flor brotou. Só folhas!

Uma abelhinha aproximou-se dela cantando:

- Zumm... zumm... zumm... Que árvore feia! Só tem folhas! E as flores, onde estão?
Amiga Zézé, o que vamos fazer?

Aí a amiga que a acompanhava continuava calada e a observar. Eis, então, que afirmou:

- Aqui não fico, pois preciso levar um pouco de mel para a minha colmeia.

Vocês sabem o que é uma colmeia? É a casinha das abelhas. É ali que elas moram e fabricam o mel, que é um óptimo alimento.

As abelhinhas são muito trabalhadoras pois retiram o néctar das flores, depois levam-no para a colmeia e ali o depositam. Hoje, amanhã, depois... E vão formando o mel tão saboroso.

Digam-me lá, vocês já provaram um favo de mel? Hum! Como é gostoso!

Bem, voltemos à nossa história.

A abelhinha continuou a dizer:

- Como esta árvore não tem flores, vou-me embora.


Chegou em seguida uma linda borboleta e, voando em torno da árvore, comentou:


- Como é triste esta árvore! Não tem nenhuma flor! As flores é que alegram a vida.


Vocês sabiam que as borboletas põem ovinhos nas folhas das plantas, e desses ovinhos nascem uma porção de lagartas que um dia se transformam de novo em lindas borboletas?
Como é maravilhosa a natureza!


Vieram também alguns passarinhos, mas não gostaram de fazer os seus ninhos na árvore sem flores, por isso também eles não ficaram lá.

A noite já começava a espreitar, quando de repente um menino se aproximou da árvore e disse:

- Estou tão cansado que vou deitar-me debaixo dessa árvore.

Deitou-se e dormiu. A árvore, no seu silêncio, pensou: "Como ele está cansado... Deve estar sentindo frio! Vou derrubar as minhas folhas sobre ele, para lhe servirem de agasalho, assim ele ficará quentinho".

Quando amanheceu, o menino acordou e disse admirado:

- Tantas folhas. Dormi tão bem! Como esta árvore é boa e generosa! Agasalhou-me com as suas folhas! Vou agradecer-lhe.

Pensou, pensou e pensou... Lembrou-se, através dos seus poderes mágicos, de a transformar na árvore mais bela e alegre do bosque.

Virou-se para a árvore e disse- lhe:

- De hoje em diante, dos teus galhos brotarão flores multicores, para que todos se sintam felizes e tu também passes a sentir-te bem contigo própria.

E a magia aconteceu. A árvore ficou linda, vestida com muitas cores.



Voltaram as abelhinhas, a borboleta e os passarinhos, e todos disseram:

- Como estás bonita, perfumada e alegre! És a árvore mais linda que existe! Viremos sempre visitar-te!

E como todos estavam contentes, cantaram junto das formosas flores.

Texto de Teresa Escoval (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Pernilongo distraído


- Ei, Longos! Sempre vens ou não?
- Pá, ‘tou feito! Não me aborreças agora!
- Mas, já tínhamos combinado há bué, meu! Hoje é a final. Super importante!
- Importante? Nada é mais importante do que isto! Só te digo que ‘tou feito à posta!
- À posta? ‘Tás bem?
- Que é que achas? Estou feito, já te disse. Olha, Pernas, diz ao pessoal que hoje não vai dar. Quero lá saber da final! Rico final vou eu ter!
- Queres dizer-me o que se está a passar? Quem te vir diz que és tonto, Longos. Já está lá tudo à espera, só faltas tu. Daqui a nada, ficas com as pernas brancas. Uhuh! Que cena marada! O Longos de perna branca. Vais levar um baile!
Ah! É verdade, a tua mãe queria falar contigo. Passei lá para te ir buscar e ela disse-me…
- Ai! Não quero saber! Não quero saber! Vou levar é das poucas, isso é que vou. Deixa-me, Pernas. Se me livro desta juro… juro… sei lá, que nunca mais venho nadar com aquela cena.
- Mas que cena? Cenas ‘tás é a fazer tu, aqui, ora vai abaixo, ora vem acima, ora baixa o traseiro, ora tira. Nem a nadar estás, qual é? Olha, a tua mãe mandou…
- Qual é? Não me fales na minha mãe que me passo! Já viste um jovem pernilongo à beira dum ataque de nervos?
- Olha-me este! E se me dissesses o que se passa, hã? Mas deixa-me dizer-te o que a tua mãe…
- Esquece a tua tia, Pernas! Nunca a viste virada, pois não?
- Longos, já nos conhecemos desde sempre, bolas! Diz lá que eu ajudo-te. Não há-de ser nada do outro mundo…
- Vai ser, se eu voltar para casa e disser à minha mãe o que aconteceu!
- A tia Longuita? Ái que já não estou a perceber nada! Ela nunca te bateu, meu!
- Mas desta, levo por todas as que fiz e que não fiz, acredita!
- Bom! Diz lá o que fizeste. Sou teu amigo ou não sou? Se quiseres até digo à tua mãe que fui eu. A mim ela não me diz nada, ou antes, disse. Pediu para…
- Disse que tu és super organizado, não foi? Ela ‘tá sempre a dizer-me: “Longuitos, Longuitos! És tão distraído, filho! Podias ser como o Pernitas. Mas não! Deixas tudo em qualquer lado, nunca sabes onde puseste as coisas. Depois andas aflito. E patati e patatá…
- Isso é o que ela te diz! A minha mãe está sempre a dizer-me que eu leio até altas horas! Que estrago a vista!...
- Eh!Eh! Agora até me fizeste rir, e eu não me posso rir, ouviste? E não me fales em vista! Olha, é assim, e, se deres ao bico, eu ‘tou feito, mas tu, Pernas, começa já a dar de patas porque digo ao pessoal que não adormeces sem ser com a luz acesa.
- Pá, essa não, meu! ’Tás-me a gozar? Prometeste que não abrias nunca o bico, ‘Gus!
Vais dizer-me ou não? Vamos ficar aqui o dia todo? Já ‘tou com as pernas a doer.
- A minha mãe diz-me sempre para eu não usar as lentes quando vou nadar, né? E já viste quantas me comprou este ano. Até me cortou a mesada.
- Pois cortou e quem se tem que chegar à frente sou sempre eu.
- Então, acordei cedo e pensei em vir nadar e pus as lentes.
Estava o nosso Longos a contar e não reparava, aflito que estava, que o primo já se ria como um perdido.
- Ainda gozas? Pá, perdi as lentes! Eu ‘tou feito! Pára de te rir e ajuda-me a procurar.
- Longos! Queres ouvir-me?
- Quero que me ajudes! Sem as lentes é que eu não saio daqui!
- Tu não perdeste nada, meu!
- Não perdi o quê? Estou-te a dizer que não consigo ver direito, já nem sei se é do nervoso, se é de quê!
- Longoooooos!
O Longos olhou e viu que o primo tinha uma caixinha na asa!
- Pernas! Também vais usar lentes? Queres ver que é de família?
- Longos! São as tuas lentes, meu!
- Bolas! Viste-me aqui aflito! Já me imaginava sem mesada para a vida inteira!
Que alívio! Desta já me safei! Olha, que é que queria a minha mãe dizer-me?
- A tua mãe pediu que te trouxesse as lentes, trengo!
- Podias ter-me dito logo!
O Pernas pousou a asa no ombro do primo e disse a rir:
- És mesmo um Longas, ó Longos! ‘Bora lá que o resto do grupo já deve ‘tar é seco de esperar.

Texto de Cristina Miranda - Blogue: Lugarejo de Palavras (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 11 de julho de 2009

Osvaldo - O Caranguejo–Marinheiro


Chove torrencialmente. As crianças encostam os rostos tristonhos à janela que espreita, sorrateira, o vasto jardim que rodeia alegremente o blogue da Helena.

As árvores tremem agitadamente face ao frio que, impiamente, as pequeninas folhas dos seus ramos parece devorar. Insaciavelmente.

Estamos, contudo, em pleno mês de Julho. As crianças acordaram cedo. Vestiram-se de cor e alegria e por entre baldes, pás, moinhos de vento e tantos outros apetrechos e ternos sorrisos preparavam-se para a sua primeira ida à praia.

Lilly contempla as crianças sentada no conforto do amplo sofá. O cesto com as sandes de queijo e os bolinhos de coco descansa, contrariado, na mesa da cozinha. As bebidas, ainda frescas, tentam aquecer-se dançando sobre a toalha branca com motivos de mar.

Algumas lágrimas rolam sob os rostos incrédulos que colados ao vidro, agora baço, tentam, em vão, avistar ao longe os preciosos raios de sol.

Lilly abre um pequeno livro em forma de concha. Sente-se a maresia invadir a sala. As crianças correm para junto de si e com os olhinhos reluzentes aguardam, impacientes, a história por contar.

Fala de uma praia distante. Um lugar de sonho no qual Osvaldo, o caranguejo–marinheiro, transporta no seu velho barco a remos um grupo de turistas. Ouve-se o canto das sereias que acompanha o bater ritmado das ondas na proa do barco.

As crianças sorriem. Entram no pequeno barco e deixam-se conduzir a uma pequenina praia banhada por búzios e algas multicolores. A água tépida e límpida deixa antever o bailado cronometrado dos inúmeros peixes que, sob as longas caudas, parecem pintar uma tela no fundo do mar.

As crianças sentem o sol bater nas suas faces. O tapete da sala transforma-se num suave areal que conforta os seus pezinhos descalços.

Lilly está radiante. Osvaldo fala dos seus feitos heróicos e alerta as crianças para os segredos escondidos na suavidade das ondas que beijam, docemente, o casco do barco.

O sonho interrompe-se por breves instantes. Batem à porta. Quem será?
Lilly apressa-se, curiosa, e o silêncio irrompe a sala …
A porta está totalmente aberta. O sol invade o amplo espaço e um encorpado caranguejo, em tons de vermelho–fogo, espreita timidamente dizendo:

“Olá. Sou o Osvaldo – o caranguejo–marinheiro. Estava de caminho para casa quando avistei este belíssimo jardim e resolvi espreitar … Posso entrar?”.

Texto de Carla Alves - Blogue: Velas ao Vento (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Quem mexeu no meu pão?

Quem mexeu no meu pão?!!!... Esta gente sem vergonha mete o bico em todo o lado menos nos seus próprios pratos. Mal se olha para o lado lá estão eles a gamar ou a tentar... são piores que aquela gente que passa o tempo todo a debicar na vida alheia. Arre que são piores que as comadres!!! A essas ainda podemos virar as costas e ignorar. É o mal de viver num bairro antigo e dito típico de Lisboa... quadrilheiras e ladrões de conveniência são às carradas ... é mais fácil tropeçar nesses do que numa pedra da calçada ... até porque afinal de contas tenho asas.

Deixa cá pegar no meu pão e levá-lo para lugar seguro. Estes bicharocos de quatro patas, nariz afiado e muito pêlo não são de confiança. Bem que a LisSecuritum dava aqui jeito ... huum ... boa ideia!!! Vou chamá-los, pois aqui terão muito trabalho para fazer e até estou a fazer um favor a estes humanos, que nem se apercebem dos perigos que correm ao ter estes roedores por perto. É isso mesmo... vou ligar-lhes!

triim triim

- LisSecuritum bom dia!

- Muito bom dia senhores. Gostaria de vos informar que o Bairro Alto tem imensos roedores e que estão sempre a tentar roubar-nos a comida oferecida pelos humanos. São uma praga total.

- Muito bem! É uma parte da cidade que já tinhamos intenção de inspeccionar, mas de facto ainda não temos pessoal suficiente para cobrir todas as áreas.

- Pois acredito que tenham mesmo muito trabalho a tentar controlar roedores e as malucas das pombas, mas essas não se chegam quando estou por lá.

- Estou a ver que pelo menos é temido pelas pombas, isso é muito bom e seria útil para nós termos um vigilante assim. Será que gostaria de integrar o nosso quadro de vigias?

- É uma proposta tentadoramente interessante, mas tenho o meu emprego.

- Bem, apenas precisaria de nos informar sobre as ocorrências que vai registando, no dia-a-dia, junto dos moradores do Bairro. Será atribuída uma pequena recompensa por cada alerta válido.

- Muito bem, aceito. Podem contar comigo!

- Agradecemos a sua colaboração e vamos enviar uma equipa imediatamente. Diga-nos onde aconteceu o incidente.

- A meio da linha do Elevador da Bica.

- Percebido e registado. Mais uma vez agradecemos a sua colaboração e bem vindo aos quadros da LisSecuritum! Apenas solicitamos que passe pela nossa sede de forma a formalizar o contrato.

- Concerteza! Hoje à tarde passarei por aí.

- Então até logo!

- Até logo!

Bem, deixa-me cá pirar e levar a paparoca para o telhado. Agora que fiz a minha boa acção do dia vou refastelar-me com um almoço com vista para o Tejo!!

Texto de Sandra Marques - Blogues: Nas Asas dos Sonhos e Chocolate PB (Todos os direitos de autor reservados)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Uma família delicada


Foi quando os ouvi no meu jardim...

Hoop! Hoop! Hoop! Fazia Dom Poupa Delicado, chamando Dona Poupa Delicadeza, já tendo preparado a refeição dos dois, bicando por todo o lado em diferentes direcções, procurando minhocas que ele bem sabia ser o prato preferido dela.

Repetiu o seu chamamento, Hoop! Hoop! Hoop! Como tardava Dona Poupa Delicadeza, pensava impaciente Dom Poupa Delicado, que ensaiou um voo mostrando as suas belas asas todas riscadas de preto e branco, tal como o topo da poupa.

Espreita da cavidade de uma árvore Dona Poupa Delicadeza que chocava os seus ovos de cor azul esverdeada, que pareciam verdadeiros ovos da Páscoa, perguntando ao seu companheiro se não tinha visto o coelho.

- O coelho? Qual coelho? pergunta Dom Poupa Delicado.

- O coelho que roubou os nossos ovos no ano passado, respondeu triste Dona Poupa Delicadeza.

- Ah! O coelho da Páscoa!! Já foi embora! Mal o vi, chamei todos os pássaros e também o cão dono do jardim. O coelho mal viu o cão desapareceu correndo. Não tenhas medo este ano ninguém roubará os nossos ovos.

Hoop! Hoop! Hoop! Canta contente Dona Poupa Delicadeza e corre junto com Dom Poupa Delicado a comer as minhocas por ele preparadas.

Dias depois, dos belos ovos que pareciam pintados, nasceram as Poupinhas Delicadas.

Existia no meu jardim, mais uma família feliz.

Texto de Claras Manhãs (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 31 de março de 2009

O importante é...

Uma população inteira de lebres permanecia em intenso burburinho à beira do rio. Os assobios e guinchos ecoavam por todo o vale e o som chegava às restantes populações que eram atraídas pela curiosidade até ao local. Metade da população desconhecia o ocorrido: a lebre Alpina, filha de um conceituado casal humilde com muitos filhos e considerada pelos habitantes do vale como uma aberração da sua espécie, desaparecera sob olhares atónitos de forma inacreditável, simplesmente caminhando sobre as águas do rio como se do solo se tratasse, até o vulto se diluir pelas brumas do fim da tarde.

Algumas lebres roídas de inveja aventuravam-se a entrar na água, convencidas que se uma moribunda era capaz de tal feito, elas também o seriam. Com o orgulho a crescer no focinho entravam na água umas atrás das outras.
- Ploff, ploff, ploff – O som das lebres a mergulharem na água ouvia-se acompanhado de gritos de socorro, aos quais as outras acudiam com canas e lianas para puxar as companheiras para a margem.
Feridas na vaidade, não davam o braço a torcer e justificavam que a Alpina já se teria afogado, que aquele caminhar sobre as águas fora uma ilusão colectiva ou ainda que teria sido possível por uns instantes devido a um arranque a alta velocidade. Tudo servia para não admitirem que a Alpina era uma lebre prodígio com poderes para além do mundo animal. Permaneciam na margem à espera de um regresso amontoando-se em número cada vez maior, como peregrinos num santuário à medida que a notícia se espalhava por outras terras.

As horas passaram e transformaram-se em dias. A margem do rio tornara-se num acampamento de tocas no meio das silvas e das giestas, as lebres enchiam minúsculos cântaros com água do rio que levavam para os abrigos e, apesar do discurso trocista das maldosas que teimavam em desacreditar a Alpina, ninguém parecia disposto a sair dali.
Quase três dias depois, ouve-se um grito ao longe. Alguém avistara um movimento nas águas e apontava para o rio. Todas as lebres se mantinham nas patas traseiras para verem melhor e de súbito, um feixe de luz emerge do cinzento das brumas. Aparece a Alpina caminhando sobre a água mais graciosa do que nunca, dirigindo-se à multidão de lebres na margem que a recebeu em estrondosos chios e aplausos, querendo tocar nela, fazer perguntas sobre tudo o que vira e ouvira, empurrando-se umas às outras de tal maneira que a Alpina era impedida de respirar. Alpina gritou à multidão que se acalmasse, que ela haveria de contar tudo a seu tempo. Fez-se silêncio na margem do rio, quebrado de vez em quando por um espirro, um assobio ou pelo disparo da máquina fotográfica da lebre Paixão, cujo sonho de mostrar os trabalhos ao mundo era motivo de chacota de outras lebres, que longe de a deitar abaixo, criavam nela uma força descomunal para seguir o caminho.
Assim que a ordem se instalou, Alpina começou a relatar a história.
- Na outra margem encontra-se um mundo fabuloso noutra dimensão, a preciosa jóia da existência onde as lebres, os lobos e os homens coexistem em harmonia e amizade, onde a riqueza é repartida de igual modo entre todos para que ninguém sofra privações.

A assembleia solta exclamações de espanto e as lebres que seguiam o caminho da maldade não reagiam, incomodadas. Numa nova tentativa de desacreditar a Alpina, gritaram "mentirosaaaaaaaa!, como sabemos que não inventas toda a história?” – sendo imediatamente silenciadas pelas outras lebres – Silêncio! – ordenara alguém na multidão. Alpina continuava o relato respondendo a perguntas que as mais próximas lhe faziam e, dirigindo-se novamente à multidão, fixando a lebre Paixão nos olhos, continuou:
- O essencial na vida deste lado da margem é estarmos em fascínio constante com o que nos rodeia, mesmo que sejamos perseguidas pelos predadores ou pelo homem que caça porque tudo faz parte do domínio da natureza. A sobrevivência encontra-se em nós e no caminho ou nos sonhos que seguirmos, será construído o destino.
Fixando ainda mais a lebre Paixão, continua:
- O importante é continuar a arranhar a máquina, insistindo nela tantas e tantas vezes quanto forem os desejos porque é assim que se fabricam os sonhos, da massa dos desejos e da força de vontade, nascem os verdadeiros castelos e mais, digo-lhes mais, qualquer uma de vós que tenha o coração puro será capaz de caminhar sobre as águas até a outra margem, basta que siga o passo que só tem uma direcção, para comigo atravessar este rio.

Texto de M. - Blogue: Citadel (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Bichinhos brincalhões


Não sei se sabes rimar,
mas sei que podemos brincar
entre os teus braços e o meu olhar
juntos vamos nesta flor cantar!

À cabra-cega ou às escondidinhas
jogos de sempre e histórias de encantar
convido-te para com as tuas pintinhas
na roda te juntares e comigo dançar!

















Somos bichinhos de mil cores
numa fábula queremos entrar.
Afastamos aos pulos todas as dores
pois o que queremos é amar.

Assim aqui vivemos e sorrimos
em comunidade familiar
se és um dos verdadeiros amigos
contigo sabemos que podemos contar!


















Texto de Carla Marques - Blogue: Palavras em desalinho (Todos os direitos de autor reservados)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Lenga-lenga para uma aranha (II)

Tece a teia na aldeia
uma aranha muito feia.
Balanceia, papagueia
e come papas de aveia.
Na areia se bronzeia
até ser hora da ceia.
Quando vê a lua cheia
ela passeia à boleia.
Se pensa comer geleia
toda ela se maneia.
Esta aranha muito feia
que vive na nossa aldeia
quase nunca se penteia.
Seria uma boa ideia
ir visitar a colmeia
e de abelhas a ver cheia.
Mas não sai da sua teia
e se falo ela rabeia
e as patas esperneia.
Na aldeia tece a teia
uma aranha muito feia.


Texto de Luísa Azevedo - Blogues: banana ou chocolate? e Pin-Gente (Todos os direitos de autor reservados)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Lenga-lenga para uma aranha (I)


Bela aranha vem de Espanha,
amarela e não castanha.
Uma teia emaranha,
no meio daquela lenha.
Sopra o vento na montanha
e mais a aranha se empenha.
Vem de Espanha a bela aranha
e uma teia desenha.
Uma mosca logo apanha
que parece um pouco estranha.
O bicho se emaranha,
na bela teia da aranha.
Agora que se amanha
já não quer voltar a Espanha.
Fica cá a bela aranha
mais ninguém lá a apanha.


Texto de Luísa Azevedo - Blogues: banana ou chocolate? e Pin-Gente (Todos os direitos de autor reservados)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Lilly – O porto que fica para além da poesia (continuação)...


Lilly, a pequenina louva–a–deus, voava alegremente num céu de flores coloridas quando, de repente, um portão gigante lhe vedou o caminho.

Curiosa, espreitou! Os seus olhinhos reluzentes encheram–se de vida. “Que lugar magnifico!”. “Que jardim encantador”. “Que palavrinhas tão deliciosas para eu saborear, lentamente, ao serão”.

As suas asas encheram–se instantaneamente de brilho e Lilly, pegando no seu pincel imaginário, pintou–as em tons de festa.

Aproximou–se, destemida. O portão estendeu os seus braços levemente enferrujados e cumprimentou carinhosamente Lilly, oferecendo–lhe uma raríssima tulipa amarela recheada a rum e chocolate.

O cheiro a Primavera perfumou o seu elegante vestido e Lilly bateu, harmoniosamente, as asas deixando–se levitar. Dançou, incansável, ao som de lírios multicolores; cantou, melodiosamente, ao ritmo adocicado da sua harpa de algodão–doce que, lentamente, desfiava as notas (musicais) que saltavam da batuta do dócil maestro – o endiabrado esquilo tenor.

Lilly estava feliz! “Sim” “Ficarei aqui” “Este será o meu novo habitat”, pensava ela, enquanto todos os bicharocos do blogue a aplaudiam encantados. Adoravam Lilly – este ser mágico, irrequieto e cheio de alegria que tanta vida trouxe a este espaço.

Lilly sonhava acordada: já se imaginava a construir os pequeninos canteiros de flores que embalariam tanta poesia, tantas palavras soltas, envoltos em sabores e cores sem fim, construindo um verdadeiro puzzle de emoções.

Lilly agradecia, compassadamente, os aplausos e dando azo a tamanha alegria teceu um bailado impregnado de rara beleza: as suas elegantes asas cobriram–se de lantejoulas cor de champanhe e quando, no ar, delicadamente esvoaçavam polvilhavam o céu de pequeninas estrelas cintilantes.

À medida que as estrelinhas desciam Lilly acompanhava–as, suavemente, e conduzia–as ao lugar que, cada uma delas, ocuparia no blogue para que, a sua luz resplandecente, acompanhasse a leitura atenta de todos aqueles que, por aqui, quisessem passar.

Texto de Carla Alves - Blogue: Velas ao Vento (Todos os direitos de autor reservados)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Este gato foi às filhóses


Tentou por aqui,
tentou acolá.
Não conseguiu nada,
voltou para cá.

Iriçou os bidodes,
cheirou o jantar,
enrolou o rabo,
fingiu ronronar.

Deitou-se no chão
perto da lareira.
Fechou um só olho,
pensava na ceia!

Sem fazer barulho,
ficou bem alerta.
Pronto a dar um salto
na horinha certa.

Não é por aí
que o gato lá vai!
Mas este é esperto
e não dá um ai.

Conta cada filhós
que na travessa cai.
Uma vai ser dele
ai isso é que vai!

E chegou a hora
de se escapulir.
Entrou na cozinha,
não estava a dormir!

Lá estão a filhóses
com cheiro a canela.
Lambuzou-se todo
e ninguém deu por ela!

E dizem-se as gentes:
Não é por aí... que o gato vai!
Mas a estas filhóses, este gato foi!


Texto de Luísa Azevedo - Blogues: banana ou chocolate? e Pin-Gente (Todos os direitos de autor reservados)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ter um amigo é tão bom!


- Pssssiut!!!
- ………
- Olá! Estava lá em cima no Blogue da Helena e apeteceu-me vir à janela.
- Blogue? Helena? Ái, desculpa, não estou a ver a que te referes. És nova, por aqui?
- Sou. Comecei há dias a colaborar no espaço da Helena. É fotógrafa.
- Ah! Uma agência de modelos. É isso? Então és modelo.
Lilly desatou a rir. Achou um piadão que aquele rapaz tão bonito achasse que ela era modelo.
- Não. Sou a Lilly. Gosto imenso de escrever e fiquei deliciada com o projecto da Helena. São contos que são lidos por jovens dos 7 aos 77. Respondi ao anúncio, ela gostou e cá estou eu. Ainda não conheço muita gente por aqui e como te vi assim, meio tristonho, perdi a vergonha e vim falar um bocadinho contigo.
Foi a vez de o nosso Azulito rir. Miúda engraçada e que simpática.
- Espera lá, agora que estás a falar, há dias andava por aqui uma rapariga com uma mala ao ombro. Perguntou-me se eu não me importava que me tirasse umas fotografias.
- Só podes ter deixado! Tens umas penas tão bonitas! E essa cor!
- Não me importei. Hesitei um bocadito. Sabes? Eu sou um pavão e nem imaginas o que corre de boatos por aí!
- Então? Boatos?
- Que sou um grande vaidoso, que só olho para mim, que ando atrás das miúdas todas aqui do jardim e não é verdade.
- Mas a Helena é uma ternura de pessoa, uma paixão! Com ela podes falar de tudo.
- Achas mesmo? Não falo assim com as pessoas sobre isto. Ela deveria pensar que eu me estava a armar, sei lá!
- Estás a falar comigo, não estás?
- Mas não és pessoa e já vi que és super simpática.
Lilly adorou e deu um salto e foi pôr-se mais pertinho daquele Pavão tão bonito.
- Pronto! Sou pequenota. Dali do chão não te conseguia ver bem. Mas, diz-me, não gostaste da Helena? Se dizes que sou simpática espera para falar com ela e vais ver! Ela está sempre atenta e claro que te ajudaria a acabar com esse diz que disse.
- Claro que gostei! Ela tratou-me tão bem! Foi-me fotografando. Disse até para me por à vontade e que eu não precisava de posar.
As pessoas que vêm aqui ao jardim adoram ver-me, mas, eu sei que depois me chamam vaidoso e outros nomes que nem te digo. Não faço a mínima ideia porquê mas até me compararam com um tal D. Juan, só que me chamaram D. Pavan.
- És mesmo engraçado! – e Lilly ria, divertidíssima – É porque tu és muito bonito, entendes?
- Tu também. Já te chamaram nomes assim?
- Já! Dizem que sou uma magrela, que pareço uma vara de pauzitos mas eu não ligo nenhuma nem dou ouvidos e tu tens é que fazer exactamente o mesmo.
Importa o que se é por dentro, e já deu para perceber porque é que a Helena te pediu para te fotografar.
- Achas mesmo? Não estás a dizer isso só por dizer?
- Não acho, Azulinho. Tenho a certeza!
- Então porquê? – Chamava-lhe Azulinho. Gostou.
- Eu disse-te que estava lá em cima no Blogue da Lena, não disse?
- Sim, e?...
- Não te disse é que já vi as tuas fotos lá, que ela saiu mas deixou o computador ligado.
- Fiquei na mesma… diz tudo duma vez, ó piolha!
Lilly deu mais um salto e ficou no dorso do amigo que sabia ter encontrado ali.
- Vou contar-te um segredo. A Helena já mandou as tuas fotos para uma amiga para que ela escrevesse uma história sobre ti. Ela sabia que andavas super triste por pensares que gostavam de ti só por seres bonito por fora e como te sabe assim, tão bonito e terno e simpático, achou que te podia ajudar. Vais ver, Amigo. Daqui a dias vais receber muitas visitas e vão olhar-te assim, como ela te olhou, e, nunca mais te vão chamar D. Pavan.
O pavão ficou calado sem saber bem o que dizer. Olharam-se e desataram a rir.
- Há muito que não encontrava um bichito como tu, Lilly. Tens que ir já para o Blogue?
- Não. Estou na minha hora de intervalo, porquê?
- Porque me disseste que começaste a trabalhar há pouco tempo aqui e faço questão de te mostrar este espaço. Afinal, hoje ganhei uma Amiga e há que celebrar.
- Eia! ‘Bora lá que te acompanho. Mas vai com calma que tenho que ir dando uns saltos.
- Nem penses, Minorca! - E piscou-lhe o olho a sorrir – Faço questão de te levar assim para poderes ver tudo cá do alto como deve ser. Vou mostrar-te todos os cantinhos à casa.

Lá em cima, pela janela do Blogue, a Helena sorria.
Que maravilha ver como os visitantes olhavam com tanta ternura um pavão todo vaidoso a passear, com uma Louva a Deus no dorso, toda catita, pelo jardim.
Não resistiu! Foi buscar a máquina para ficar com mais um belo momento.

Texto de Cristina Miranda - Blogue: Lugarejo de Palavras (Todos os direitos de autor reservados)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Dona Aranha e sua teia

Dona Aranha fez a teia,
esqueceu-se do telhado.
É uma bonita renda,
de um só fio entrelaçado.

Muito trabalha a senhora!
Tece o fio que produz.
A teia fica invisível,
quando não lhe bate a luz.

Muito leve e transparente,
para que ninguém a veja.
É assim que ela apanha,
a comida que deseja.

Não julguem que ela é má!
Tem mesmo que o fazer.
Apanha alguns bichitos,
senão não tem que comer.

E depois há os filhotes,
que tem que alimentar.
Boa mãe é esta aranha
e seus filhos quer mimar.

Tem umas patinhas finas,
para não colar na teia.
Esconde-se num cantinho
e espera a sua ceia.

Fez longos metros de seda.
Trabalhou a noite inteira.
Pois agora bem merece
descansar desta canseira.

Texto de Luísa Azevedo - Blogues: banana ou chocolate? e Pin-Gente (Todos os direitos de autor reservados)

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